Yoshitaka Amano, um dos nomes mais influentes da arte japonesa contemporânea, esteve na Anime Expo 2026 para conversar sobre ZAN, projeto que une narrativa e visual em um universo próprio. Durante uma entrevista presencial e individual, ele falou sobre a transformação do material de origem, as escolhas criativas que sustentam o anime e o que pretende desenvolver depois dessa etapa. O encontro também trouxe reflexões sobre o papel da animação japonesa no mundo e sobre como a cultura de samurais, tão enraizada no Japão, dialoga com referências que atravessam fronteiras.
O ponto de partida da conversa foi a origem do enredo. ZAN nasce de uma HQ publicada pela Dark Horse, Deva Zan, que, segundo os entrevistadores, era um livro grande, complexo e de leitura nem sempre imediata. Amano e sua equipe precisaram traduzir esse conjunto de ilustrações e conexões visuais para uma estrutura mais compreensível para o formato seriado do anime.
De Deva Zan ao anime: o desafio de condensar um universo
Mariko Suzuki, integrante do time que acompanha Amano, explicou que a obra original tinha um caráter bastante “esotérico” e que o autor havia enviado várias ilustrações conectadas entre si. Nesse processo, Carl Horn atuou como editor, organizando o material em uma linha do tempo para Deva Zan. O resultado, ainda que fascinante, podia confundir parte do público, justamente por reunir muitos elementos em um único volume.
Para o anime, a equipe está usando apenas cerca de um décimo do livro. A intenção, de acordo com Suzuki, é reunir as partes para que o conjunto fique mais coeso e “palatável”, sem perder a essência do universo de ZAN. Em outras palavras, não se trata de uma adaptação literal, mas de uma seleção e reorganização criativa, com foco em tornar a história mais fluida para quem encontra o projeto pelo anime.
Essa escolha também ajuda a entender por que ZAN carrega uma sensação de mito, com imagens que parecem funcionar como pistas de um mundo maior. Amano, ao longo da entrevista, reforçou que o projeto não surgiu de uma ideia recente, mas de um acúmulo de décadas.
“Quero criar minha própria mitologia”: a paixão que atravessa anos
Quando questionado sobre o que move a vontade de contar essa história, Amano respondeu de forma direta, mas com uma perspectiva ampla. Ele disse que sempre quis criar sua própria mitologia. Ao observar mitologias feitas por outras pessoas, sentiu que também queria construir a sua, como um trabalho autoral capaz de sintetizar referências e experiências.
Para ele, ZAN representa o ponto culminante do esforço de uma vida. Amano reconheceu que o público pode associar seu nome a projetos como Final Fantasy ou Vampire Hunter D, mas destacou que esses são trabalhos criados por outras equipes. Já ZAN seria, nas palavras dele, o trabalho da própria vida, algo que não nasceu nos últimos dez ou quinze anos.
Na tentativa de explicar como esse universo foi se formando ao longo do tempo, Amano recorreu a uma imagem concreta. Ele mencionou o livro Hero, lembrando do tanque de guerra que o personagem utiliza. A ideia por trás da comparação é que, olhando para o conjunto do que ele produziu nas últimas três décadas, é possível enxergar “gotículas” de ZAN se acumulando. Com o tempo, esses elementos teriam sido cristalizados em uma mitologia própria.
Essa forma de descrever o processo ajuda a entender por que o projeto chama atenção não só pelo enredo, mas pelo estilo visual e pela construção de atmosfera. ZAN parece funcionar como uma espécie de assinatura artística, na qual temas recorrentes ganham forma definitiva.
Influências e referências: samurais, mitos e a diferença entre “real” e “fantástico”
Ao ser perguntado se era mais fã de samurais ou de mitologia, Amano respondeu a partir de uma perspectiva cultural. Ele afirmou que, para um japonês, os samurais fazem parte das raízes. Disse também que foi influenciado por diversos filmes sobre o tema e que mantém amizade com Kazuo Koike, autor de Lone Wolf and Cub. Amano comparou a presença dos samurais no imaginário japonês aos cavaleiros na cultura ocidental, sugerindo que, em ambos os casos, existem figuras que se tornam onipresentes.
Durante a conversa, Michael Gombos complementou a explicação com uma leitura comparativa. Ele contou que, certa vez, Amano disse que o equivalente ocidental do samurai seria o cavaleiro. Porém, para um japonês, um cavaleiro seria algo mais fantástico. A armadura de placas ou de malha, segundo Gombos, não seria algo que um japonês poderia imaginar naturalmente há quinhentos anos. Assim, cavaleiros tenderiam a parecer “de outro mundo”, enquanto os samurais teriam uma proximidade emocional maior, quase como algo que pertence ao cotidiano histórico.
Essa distinção, embora pareça sutil, ajuda a compreender o tipo de fantasia que Amano costuma construir. O universo dele não se limita a criar monstros e batalhas; ele também trabalha com a forma como certas figuras são percebidas culturalmente, o que muda a maneira como o público se conecta com a história.
O que é ZAN além do anime e como o projeto voltou a andar
A entrevista também abordou o tamanho do projeto. Quando perguntado sobre planos para expandir ZAN para além do anime, Hiroaki Ikegami afirmou que existem intenções de ampliação, mas que, naquele momento, não havia anúncios a fazer. A resposta sugere que o universo pode crescer em outras mídias, embora a equipe ainda estivesse concentrada na etapa principal.
Outro ponto relevante foi a trajetória do projeto até chegar ao estágio atual. Em 2016, a conversa já havia tocado nas esperanças para um filme, já que o trabalho teria ficado paralisado. Agora, Amano explicou que a retomada ocorreu quando surgiu a oportunidade certa, incluindo a presença dos criadores adequados para se aproximarem do projeto.
Ele citou uma confluência de eventos, entre eles o fato de pessoas envolvidas com Armored Trooper VOTOMS desejarem trabalhar com o time de ZAN. Na prática, a equipe esperou até que as condições se alinhasssem e, então, o projeto finalmente se consolidou.
Esse tipo de relato é comum em grandes produções, mas ganha peso aqui porque ZAN depende de uma linguagem autoral muito específica. Não basta “querer fazer”; é necessário encontrar o conjunto certo de parceiros para transformar uma visão artística em narrativa animada.
Reedição do livro e a evolução do estilo de Amano
Além do anime, a conversa tratou da possibilidade de reimprimir o livro. Michael Gombos disse que, nos painéis de Amano-sensei e da Dark Horse, seria anunciada a republicação da obra com uma nova capa. Ele comentou que o novo design está “muito legal” e que a apresentação visual deve agradar tanto quem já conhece o material quanto quem vai descobrir agora.
O tema da capa também se conecta ao modo como Amano descreveu a própria evolução artística. Ele afirmou que, ao longo do tempo, foi incorporando partes do que produziu em diferentes fases. Quando tinha 25 anos, trabalhava com animação para outras pessoas. Aos poucos, deixou esse caminho e passou a atuar em vários projetos, mas sem produzir animação diretamente para si.
Mais tarde, a dinâmica mudou: ele passou a desenhar e outras pessoas animariam o trabalho dele. Segundo Amano, o estilo atual foi se formando a partir de fragmentos acumulados em projetos diversos, seja por encomenda, seja para a Tatsunoko Production. Ele citou que o conjunto de influências pode vir de Final Fantasy, de Vampire Hunter D e de outras produções no meio do caminho. O resultado é uma espécie de amálgama, que se manifesta com força quando ele ilustra ZAN.
Ao mesmo tempo, Amano descreveu a sensação de ver sua estética virar animação como uma evolução particular. Antes, ele desenhava personagens para outras empresas. Agora, o que aparece na tela é o trabalho dele. Ele também mencionou a mudança de posição no tempo, saindo do momento em que tinha 25 anos até chegar aos 74, como se fosse uma espécie de retorno ao ponto de partida, só que com controle total sobre a autoria.
Consultoria e direção: como ele participa do storyboard
Quando perguntado se estava envolvido diretamente, consultando e acompanhando os storyboards, Amano confirmou que sim. Ele disse que faz consultoria editorial e supervisiona todo o processo de storyboarding. Essa participação reforça a ideia de que ZAN não é apenas um “projeto com arte de capa”, mas uma construção em que o autor acompanha a passagem do desenho para a narrativa animada.
Na mesma linha, ele comentou que, naquele momento, a equipe se concentra em ZAN, mas que pretende fazer ainda mais depois. Amano afirmou que tem muitas ideias, embora não tenha detalhado quais seriam os próximos passos.
Do escuro ao novo: o próximo projeto não será de fantasia sombria
Mesmo sem revelar detalhes, Amano deixou uma pista importante sobre a direção futura. Ele descreveu ZAN como uma fantasia sombria e disse que o projeto seguinte não será nesse tom. A frase sugere que o autor quer explorar outros registros, talvez com uma atmosfera diferente, ainda que mantenha o mesmo cuidado com a construção visual e a mitologia.
Essa transição também dialoga com a forma como ele pensa a própria carreira. Ao longo da entrevista, Amano tratou o trabalho como um acúmulo de experiências, e não como uma sequência de projetos isolados. Assim, a mudança de gênero pode ser vista como uma etapa natural de um universo que está em expansão.
A animação japonesa no mundo: explosão, diversidade e público global
Em um dos momentos finais, a conversa se deslocou do universo de ZAN para o cenário mais amplo da animação. Hiroaki Ikegami comentou que há uma explosão de animação japonesa no exterior e perguntou se isso estaria “exagerado”. A discussão abriu espaço para uma visão mais ampla sobre o meio.
Os entrevistadores lembraram que não é apenas animação japonesa. Há produção chinesa e coreana, e o formato se tornou uma linguagem global. Foi citada a presença de grandes estúdios ocidentais, como a Disney, usando animação como ferramenta narrativa. Também foi lembrado que Tezuka e a Sunrise ajudaram a consolidar o meio, e que, hoje, outras culturas recorrem à animação porque ela permite contar histórias de maneiras que nem sempre funcionam em outros formatos.
Quando o tema voltou especificamente para a animação japonesa, a explicação foi centrada em conexão emocional. A entrevista apontou que histórias como Dragon Ball e One Piece conquistaram pessoas no mundo inteiro, não apenas na América do Norte. O público citado inclui América do Sul, Europa e, em especial, a França. A ideia é que a popularidade vem de narrativas capazes de prender a atenção e criar vínculo.
Para ilustrar esse alcance, foi usada uma imagem marcante: haveria mais “chapéus de palha” fora do Japão do que dentro dele. A metáfora reforça que a cultura pop japonesa se tornou transnacional, e que o consumo global não é um fenômeno superficial, mas um movimento sustentado por histórias.
Michael Gombos também retomou uma comparação feita por Carl Horn, que teria dito que anime e mangá são parecidos com hip-hop. A analogia, segundo a conversa, é que o hip-hop já foi visto como algo restrito a um grupo, mas acabou se tornando para todos. Do mesmo modo, anime e mangá seriam feitos para o público japonês, mas poderiam ser apreciados por qualquer pessoa.
No fim, a entrevista se encerrou com agradecimentos. Amano agradeceu, e a equipe reforçou a sensação de que ZAN é, ao mesmo tempo, um projeto autoral e um ponto de encontro entre linguagens, memórias visuais e um público cada vez mais amplo.
(Nota do editor: Yoshitaka Amano viaja com uma equipe que inclui Mariko Suzuki, sua gerente, Hiroaki Ikegami, amigo e parceiro de negócios, e Michael Gombos, diretor sênior de publicações licenciadas da Dark Horse Comics, Inc. Durante a entrevista, foi observado que o grupo trabalha bem em conjunto como uma equipe. Também foi mencionado que Suzuki escreveu um livro sobre história da arte com ilustrações de Amano, intitulado Yoshitaka Amano Art History.)
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Fonte: Anime Herald



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