Ações da Ubisoft despencam 34% e ex-dev rebate acusações sobre políticas internas
Ações da Ubisoft despencam 34% e atingem menor valor em 15 anos; ex-dev rebate críticas a políticas internas.
Índice
- Reestruturação profunda acelera perda de valor
- Projeções financeiras pioram o cenário
- DEI vira bode expiatório nas redes — mas ex-dev discorda
- “Não tinham esse nível de influência”, afirma ex-funcionário
- Falhas de liderança e gestão global no centro da crise
- O risco de decisões guiadas por narrativas simplistas
- Um momento decisivo para o futuro da Ubisoft
A Ubisoft atravessa um de seus momentos mais delicados desde que se consolidou como uma das gigantes da indústria dos games. Após anunciar uma ampla reestruturação interna, as ações da empresa despencaram cerca de 34% em um único dia, atingindo o menor valor dos últimos 15 anos. O tombo reacendeu debates acalorados nas redes sociais, com parte do público atribuindo a crise às políticas internas de diversidade — algo que um ex-desenvolvedor da empresa classifica como “a mesma fake news de sempre”.
Os números impressionam e ajudam a explicar o nervosismo dos investidores. No momento da publicação, as ações da Ubisoft estavam cotadas a €4,27, patamar que não era visto desde setembro de 2011. Em perspectiva histórica, a queda é ainda mais brutal: trata-se de uma desvalorização de quase 96% em relação ao pico de €107,90, registrado em julho de 2018.
Reestruturação profunda acelera perda de valor
O gatilho imediato para o colapso recente foi o anúncio de um chamado “reset focado em qualidade”, que na prática se traduziu em uma reestruturação agressiva. Até agora, o processo incluiu:
- Cancelamento de seis jogos, incluindo o remake de Prince of Persia: The Sands of Time
- Adiamento de sete projetos em desenvolvimento
- Fechamento de dois estúdios
- Demissões em várias subsidiárias
Embora a empresa tenha tentado apresentar o movimento como um reposicionamento estratégico, o mercado interpretou o pacote como um sinal claro de fragilidade estrutural. O impacto foi imediato na bolsa, com a queda de 34% ocorrendo logo após o anúncio oficial.
Beyond Good & Evil 2 sobrevive à reestruturação da Ubisoft e entra no 18º ano de desenvolvimento
Projeções financeiras pioram o cenário
Para além do choque inicial, investidores também reagiram às novas projeções financeiras divulgadas pela própria Ubisoft. Segundo dados reportados por analistas do mercado europeu, a companhia revisou suas expectativas para o ano fiscal de 2026, prevendo:
- Prejuízo operacional estimado em €1 bilhão
- Write-down de €650 milhões, relacionado a projetos cancelados ou reavaliados
- Redução de €330 milhões nas reservas líquidas previamente anunciadas
Esses números reforçam a percepção de que a crise não é pontual, mas sim o resultado de anos de decisões questionáveis, atrasos, projetos problemáticos e dificuldades em se adaptar às transformações do mercado.

DEI vira bode expiatório nas redes — mas ex-dev discorda
Com a queda acentuada das ações, não demorou para que parte do público passasse a atribuir os problemas da Ubisoft às suas políticas internas de diversidade e inclusão. Críticas desse tipo vêm sendo recorrentes, especialmente após debates envolvendo decisões criativas em franquias como Assassin’s Creed Shadows.
No entanto, essa narrativa foi duramente rebatida por Kensuke Shimoda, ex-desenvolvedor da Ubisoft Osaka, estúdio que prestou suporte a jogos como Assassin’s Creed Shadows, Rabbids: Party of Legends e South Park: The Fractured But Whole.
Em sua conta pessoal no X , Shimoda escreveu: “Não vou me dar ao trabalho de citar, mas estou completamente perplexo com o fato de haver mais uma pessoa por aí espalhando a mesma velha notícia falsa, como ‘O preço das ações da Ubisoft caiu porque eles ficaram obcecados demais com a DEI’.”
Para tanto, Shimoda declarou: “Como ex-funcionário, posso afirmar isso claramente”, antes de listar várias refutações a essas acusações, incluindo:
• “Os defensores da DEI dentro da empresa não tinham nem de perto esse nível de influência.”
• “Na verdade, quando se trata especificamente de DEI, estava funcionando bem (coisas como melhorar o ambiente de trabalho e expandir os mercados para a América Latina e o Oriente Médio).”
• “O declínio na produção de marketing e criação foi causado pela ‘doença das grandes empresas’, que pode acontecer com qualquer corporação.”
“Como um exemplo de problema comum em grandes empresas, a taxa de rotatividade era muito baixa, o que significava uma clara escassez de funcionários de nível sênior e de liderança com experiência no desenvolvimento de jogos online, para dispositivos móveis ou F2P.”
“Além disso, a construção de uma estrutura de desenvolvimento global com subsidiárias fora das regiões francófonas, em uma empresa onde o francês é o idioma principal, levou a problemas de gestão específicos de ‘corporações globais não anglófonas’.”
Para reforçar sua posição, o desenvolvedor declarou: “Se a Ubisoft ignorar a verificação do que foi dito acima e se deixar influenciar por teorias da conspiração na internet, usando os defensores da Diversidade, Equidade e Inclusão como bode expiatório, isso será o golpe final para eles, sem dúvida alguma.”
Em resposta a críticas feitas por um mangaká japonês, Shimoda foi direto ao ponto ao comentar em sua conta pessoal na rede X: segundo ele, a ideia de que a queda das ações esteja ligada a esse tipo de política interna é simplesmente falsa.

“Não tinham esse nível de influência”, afirma ex-funcionário
Falando com base em sua experiência dentro da empresa, Shimoda destacou que os grupos internos voltados a essas pautas não tinham poder decisório suficiente para impactar o desempenho financeiro da Ubisoft.
Entre os pontos levantados por ele, estão:
- As iniciativas internas nunca tiveram influência dominante nas decisões criativas ou estratégicas
- Algumas dessas políticas, na prática, funcionaram bem, melhorando o ambiente de trabalho e ajudando a empresa a se expandir em mercados como América Latina e Oriente Médio
- O verdadeiro problema estaria em algo que ele chama de “doença de empresa grande”, um mal comum a corporações consolidadas
Segundo Shimoda, o declínio da Ubisoft está muito mais ligado a problemas estruturais e de gestão do que a pautas internas específicas.
Reset da Ubisoft cancela jogos, fecha estúdios e impõe retorno obrigatório aos escritórios
Falhas de liderança e gestão global no centro da crise
A análise do ex-desenvolvedor aponta para questões mais profundas. Uma delas é a baixa rotatividade interna, que acabou criando um déficit de profissionais em cargos de liderança com experiência em áreas hoje fundamentais, como jogos online, mobile e modelos free-to-play.
Outro ponto crítico citado é a complexidade de gerir uma estrutura global em uma empresa cuja língua principal é o francês. A presença de diversos estúdios fora de regiões francófonas teria gerado problemas de comunicação e tomada de decisão, algo que se agrava em projetos de grande escala e desenvolvimento distribuído.
Para Shimoda, esses fatores ajudam a explicar por que a Ubisoft perdeu competitividade justamente em um período em que o mercado se tornou mais ágil, tecnológico e orientado a serviços contínuos.
O risco de decisões guiadas por narrativas simplistas
O ex-funcionário ainda fez um alerta contundente: se a Ubisoft passar a tomar decisões estratégicas com base em teorias conspiratórias da internet, buscando culpados fáceis em vez de encarar seus problemas reais, isso poderia acelerar ainda mais seu declínio.
Na visão dele, abandonar análises técnicas e internas para agradar discursos externos seria “o prego final no caixão” da empresa.
Um momento decisivo para o futuro da Ubisoft
A queda histórica das ações da Ubisoft não tem uma única causa, mas sim um acúmulo de falhas ao longo de anos. Cancelamentos, atrasos, dificuldade de inovação, problemas de gestão e expectativas frustradas do público criaram um cenário explosivo que agora se reflete nos números.
O debate acalorado nas redes pode até render engajamento, mas, como mostram os dados financeiros e os relatos internos, a solução para a crise parece estar menos em discursos ideológicos e mais em reformas profundas de estrutura, liderança e visão criativa.
Resta saber se a Ubisoft conseguirá usar esse momento como ponto de virada — ou se o fundo do poço ainda está mais abaixo.
Confira mais novidades em nosso Portal de Notícias!
Fonte: boundingintocomics





No Comment! Be the first one.