O Sistema de Gestão para Empresas de Telecom, Linhas Telefônicas e IPTV
Notícias

“Sugar”: Colin Farrell transforma investigação noir em um labirinto luxuoso no Apple TV+

“Sugar”: Colin Farrell transforma investigação noir em um labirinto luxuoso no Apple TV+
“Sugar”: Colin Farrell transforma investigação noir em um labirinto luxuoso no Apple TV+
Índice

Fazer uma série de TV “dar certo” costuma ser um exercício de cálculo: custo de produção, público-alvo, potencial de resumir a proposta em uma frase chamativa e, claro, a chance de emplacar temporadas suficientes para compensar o investimento. A teoria é que nada disso pode falhar. Só que o Apple TV+ parece operar com outra lógica — uma aposta em projetos que não passam por todos os filtros tradicionais, mas que, quando funcionam, criam um tipo de assinatura visual e narrativa difícil de copiar. É nesse contexto que Sugar, com Colin Farrell, entra como mais uma peça desse quebra-cabeça: uma investigação noir que, em vez de seguir o caminho reto do gênero, se transforma em um labirinto elegante, hipnótico e levemente desconcertante.

Na primeira temporada, a série acompanhou o detetive particular John Sugar, em Los Angeles, investigando o desaparecimento de uma jovem. O caso, aos poucos, revelava conexões entre pessoas próximas e criminosos de diferentes perfis, tudo conduzido com um ar de melancolia distante. Farrell sustenta o clima com uma narração contida e uma presença que parece sempre um passo à frente — ou um passo atrás — do que o espectador espera. E, como se isso não bastasse, a série faz questão de homenagear o noir clássico: não apenas pelo tom, mas também por escolhas estéticas que remetem diretamente ao cinema em preto e branco que moldou o gênero.

O noir como linguagem — e como colagem

Um dos elementos mais marcantes de Sugar é a forma como ela trata o noir como uma espécie de idioma visual. A série recorre a enquadramentos com câmera baixa ou levemente inclinada, apresentando a cidade como um mosaico de solidões e ruas cansadas. Los Angeles aparece menos como cenário e mais como personagem: um lugar de gente desconectada, onde cada esquina parece guardar um segredo e cada silêncio pesa.

Essa atmosfera é reforçada por um recurso recorrente: trechos de filmes noir e obras esteticamente próximas são exibidos dentro do próprio mundo da série. Em algumas cenas, o detetive assiste a esses clássicos em uma TV em casa; em outras, os recortes são incorporados diretamente à ação. O resultado é uma colagem audiovisual que mistura ficção e referência cultural sem pedir desculpas por ser “demais”.

John Sugar, inclusive, tem detalhes que reforçam essa persona de apreciador do cinema antigo. Ele se apresenta como assinante da revista American Cinematographer e dirige um Corvette clássico dos anos 1960. À primeira vista, isso poderia soar como um capricho para cinéfilos — um mimo para quem gosta de estética e nostalgia. Mas a série vai além.

O detalhe que muda tudo: Sugar não é humano

Mais perto do fim da primeira temporada, Sugar revela, de forma casual e quase inevitável, que John Sugar não é humano. Sem transformar a informação em um grande “plot twist” teatral, a série entrega que ele é um alienígena, escondendo sua verdadeira aparência — um corpo azul vibrante — para se passar por um homem bem-vestido, de terno impecável e presença sedutora.

Dois anos depois, quando a segunda temporada retoma a história, o espectador volta ao mesmo detetive, mas com uma mudança de foco: o lado extraterrestre é empurrado para a periferia. A série faz uma espécie de “arrumação” rápida para situar o público. John Sugar está novamente em Tinseltown, sozinho, e segue lidando de maneira persistente com a ausência de sua irmã. Ao mesmo tempo, ele continua obcecado por casos que outros investigadores ignorariam — como o desaparecimento do irmão “sem rumo” de um boxeador coreano.

Essa escolha narrativa é importante porque desloca a curiosidade do espectador. Em vez de transformar a condição alienígena no centro de cada episódio, a série usa essa premissa como uma camada adicional de estranhamento. O que permanece é o olhar de Sugar sobre a cidade e sobre as pessoas: um observador desconectado em um mundo onde todo mundo parece desconectado.

Los Angeles em tons gastos, luxo e melancolia

Se a primeira temporada já tinha um fascínio por lugares esquecidos, a segunda aprofunda esse gosto. A série leva o público a partes sórdidas e negligenciadas da cidade, explorando uma “beleza urbana” marcada por desgaste. Ela gosta do descascado na fachada de uma loja fechada, do asfalto que parece ter sido esquecido pelo tempo e de estradas largas ao entardecer, cortando um emaranhado de concreto entre bairros de baixa altura.

Enquanto isso, Sugar atravessa o cenário em seu carro impecável, com o teto aberto, como se estivesse em um filme que não combina com o mundo real. Ele caça pistas em locais que parecem feitos para o noir: uma casa de sinuca, onde um recorte com Paul Newman em The Hustler aparece como referência; e um ginásio de boxe, com menções a Humphrey Bogart em The Harder They Fall. Depois, ele recua para o glamour nostálgico de um hotel cinco estrelas que passa a funcionar como sua casa.

Dentro do quarto, a série continua brincando com o cinema clássico. A TV mostra Ida Lupino em Road House, cantando One for My Baby, com um cigarro aceso apoiado de forma quase provocativa sobre o piano. É um tipo de detalhe que não serve apenas para “enfeitar”: ele reforça a ideia de que Sugar é, ao mesmo tempo, história e homenagem, realidade e lembrança.

Do gnômico ao cósmico: quando o noir vira espaço

John Sugar não ser humano é, portanto, mais uma forma de intensificar o distanciamento. Mas também abre espaço para outra camada na colagem: além dos recortes de filmes, a série passa a inserir imagens tranquilizadoras de galáxias azuladas. A narração, antes marcada por frases enigmáticas, ganha um tom mais cósmico. Farrell, com sua voz e cadência, transforma o noir em algo quase filosófico — e, em alguns momentos, quase surreal.

Em uma das falas, ele observa que “tudo chega ao fim”, e que isso pode acontecer mais cedo do que se imagina. A série então amplia a metáfora, mencionando desde sóis laterais em Andromeda até criaturas terramórficas em Paloma. É uma linha que, por si só, já parece deslocada do noir tradicional — e é justamente esse deslocamento que faz Sugar funcionar como um produto raro do Apple TV+: um lugar onde o gênero é respeitado, mas não é engessado.

Um luxo que não pede pressa

O resultado é uma experiência que pode confundir no começo, mas que tende a conquistar pelo olhar. Sugar não corre. Ela não tenta acelerar o ritmo para “prender” o público a qualquer custo. Cada episódio flui como uma névoa de meia hora, impregnada por uma vibração triste, sonolenta e, ao mesmo tempo, hipnotizante. A série parece dizer ao espectador: você pode se perder aqui, mas não vai se arrepender.

Há também um contraste curioso que continua funcionando: as “superhabilidades” centrais do protagonista não são apenas força ou velocidade, mas uma bondade cansada e uma doçura ingênua. Mesmo com sua biologia alienígena oferecendo capacidades reais, a série insiste em tratar o que mais impressiona como uma espécie de gentileza persistente — algo que, em um mundo de violência e cinismo, soa quase absurdo. É justamente essa mistura de poder e delicadeza que gera tanto estranhamento quanto encanto.

No fim, Sugar é uma daquelas séries que só poderiam existir em um ecossistema como o do Apple TV+. Não porque seja “melhor” ou “pior” do que outras produções, mas porque tem uma identidade muito própria: um universo interno com regras estéticas próprias, referências que não pedem licença e uma narrativa que prefere ser atmosfera a ser explicação.

Para quem gosta de noir, de cinema clássico e de histórias que transformam referências em linguagem, Sugar oferece um tipo de luxo que não está apenas na imagem — está no modo como a série conduz o espectador por um labirinto elegante, onde cada cena parece carregada de intenção. E, no fim, fica a sensação de que o caminho importa tanto quanto o destino.

Sugar está disponível no Apple TV+.


Confira mais novidades em nosso Portal de Notícias!


Fonte: theguardian

Comentários

Carregando...

Carregando comentários...