O diretor por trás do “timing” que virou marca
Burrows trabalhou quase sempre nos bastidores, especializando-se em sitcoms. Para muitos espectadores, o nome aparecia apenas rapidamente nos créditos iniciais, mas o resultado do seu trabalho era evidente: personagens que soavam naturais, cenas com fluidez e piadas que chegavam no momento certo.
A carreira dele se consolidou justamente nesse ponto em que roteiro, atuação e química entre elenco se encontram — e é nesse encontro que, segundo o próprio diretor, nascem as risadas mais duradouras.
Em sua autobiografia, “Directed by James Burrows”, ele descreveu o objetivo de qualquer direção de comédia: encontrar o “ponto ideal” em que o melhor texto encontra a melhor performance e a melhor conexão entre os atores.
“Quando eu dirijo uma série de TV, tento alcançar aquele ponto ideal em que o melhor roteiro encontra a melhor atuação e a melhor química entre os intérpretes”, escreveu. Para ele, quando esses elementos se alinham, o resultado é “a risada mais doce e mais duradoura”.
Essa visão aparece também no modo como a família resumiu o legado do diretor. No comunicado, afirmou-se que Burrows entendia que uma grande comédia nunca era apenas sobre rir. Era sobre humanidade, conexão e verdade.
A declaração acrescentou ainda que, além das conquistas, ele seria lembrado pela gentileza, generosidade e crença constante nas pessoas ao redor. A família destacou uma característica marcante: a capacidade de lembrar o nome de cada pessoa que conhecia, fazendo colegas de diferentes níveis se sentirem vistos e valorizados.
De “Mary Tyler Moore” ao universo NBC: uma carreira construída em sitcoms
Burrows começou na televisão relativamente tarde, aos 35 anos, em 1974. Naquele período, dirigiu episódios de “The Mary Tyler Moore Show”, “The Bob Newhart Show” e “Laverne & Shirley”. A partir daí, seu nome se tornou recorrente em produções que definiriam o padrão de sitcoms nas décadas seguintes.
Entre os trabalhos mais emblemáticos está “Cheers”. Ele foi co-criador da série e dirigiu 243 dos 273 episódios. Também esteve à frente de “Will and Grace”, dirigindo todos os 246 episódios.
Em outras produções, como “Frasier”, “Friends” e “Mike & Molly”, Burrows comandou múltiplos episódios. Ele também dirigiu os pilotos de “Two and a Half Men” e “The Big Bang Theory”, ajudando a estabelecer o tom que essas séries levariam adiante.
Grande parte do trabalho dele passou pela NBC, emissora que, no início dos anos 1990, promovia sua programação de quinta-feira à noite com o slogan “Must See TV”. Nesse pacote estavam “Friends” e “Frasier”, duas das comédias mais influentes do período.
Não por acaso, a presença de Burrows se tornou parte do “DNA” desse momento da TV aberta americana.
Em nota, a NBC ressaltou o impacto do diretor. A emissora afirmou que Burrows era “o homem por trás da cortina”, capaz de saber como fazer o público rir, quais botões apertar e como extrair o máximo de cada piada.
A perda, segundo a NBC, é “imensurável” para o mundo da comédia televisiva. A mensagem concluiu com um convite: sempre que alguém sorrisse ao assistir “The Mary Tyler Moore Show”, “Taxi”, “Cheers”, “Will & Grace”, “Friends” e outras produções, deveria lembrar de Burrows e reconhecer que ele ajudou a tornar a vida de muita gente mais leve.
Um diretor que também moldou a forma de gravar
Além de dirigir, Burrows ajudou a influenciar a própria linguagem técnica da sitcom. Ele é creditado como um dos primeiros diretores a aumentar o número de câmeras em produções multicâmera, passando de três para quatro.
Na prática, essa mudança ajudava a capturar melhor reações, revezar pontos de vista e manter o ritmo das cenas — um elemento crucial para comédias em que timing e expressões faciais fazem parte do humor.
O diretor também valorizava o que ele via como fio condutor entre seus trabalhos: laços entre amigos e famílias improváveis, formadas por pessoas que não tinham parentesco, mas que se tornavam próximas.
Em “Cheers”, isso aparecia no grupo que se encontrava no bar; em “Taxi”, nos motoristas que buscavam uma vida melhor; em “Friends”, no cotidiano dos jovens que dividiam o mesmo prédio e construíam uma rede de apoio.
Atuando ao lado de atores por longos períodos, Burrows também se tornou referência para quem estava diante das câmeras. Danny DeVito e Rhea Perlman, que trabalharam com ele por 16 temporadas entre “Taxi” e “Cheers”, disseram em comunicado que Burrows era “o melhor em seu ofício”.
Eles destacaram o espírito positivo, a energia e o trabalho incansável como elementos que definem o que é necessário para manter uma produção funcionando e as pessoas rindo. “Ele sempre estará em nossos corações”, completaram.
Identidade, bastidores e o caminho até o “break”
James Edward Burrows nasceu em 30 de dezembro de 1940, em Los Angeles. Quando tinha 5 anos, mudou-se para Nova York. Durante cinco anos, participou do Metropolitan Opera Children’s Chorus, até que sua voz começou a mudar. Ele estudou na LaGuardia High School of Music & Art.
O pai de Burrows, Abe Burrows, foi escritor, diretor e produtor, com sucessos na Broadway como “Guys and Dolls” e “Can-Can”. Abe também orientou Larry Gelbart, futuro criador e produtor de “MASH”.
Crescer nesse ambiente fez com que o jovem Burrows passasse horas em teatros e estúdios observando o trabalho do pai, jantando com ele em lugares famosos de Nova York, como Sardi’s e Gallagher’s, e conhecendo celebridades que frequentavam as festas de Ano Novo do escritor.
Depois de concluir a graduação no Oberlin College, Burrows foi para o programa de pós-graduação da Yale School of Drama. Entre colegas de turma estavam o comediante e ator Robert Klein, o dramaturgo John Guare e o diretor de cinema John Badham.
Em Yale, ele foi obrigado a cursar disciplinas de direção e acabou se envolvendo de vez com a atividade.
Seu primeiro contato com sitcoms veio como coach de diálogos de Burl Ives em “O.K. Crackerby!”, dirigido por seu pai e exibido por uma temporada na ABC, em 1965. Depois, trabalhou como assistente em “The Patty Duke Show”.
Mais tarde, voltou a Nova York e atuou para produtores da Broadway, como Lee Guber, Frank Ford e Shelly Gross. Foi nesse período que conheceu o ator Moore durante a produção de “Holly Golightly”, adaptação de “Breakfast at Tiffany’s” dirigida por seu pai.
Em 1974, após experiências em teatro de jantar e “summer stock”, Burrows viu “The Mary Tyler Moore Show” e decidiu escrever para Mary Tyler Moore pedindo uma oportunidade. Segundo sua autobiografia, ele perguntou se havia alguma vaga, “pequena ou menor”, em sua empresa de produção.
O marido e parceiro de negócios de Moore, Grant Tinker, o convidou para Los Angeles para dirigir um episódio da comédia. Burrows então fez um aprendizado na MTM Enterprises, que tinha quatro sitcoms no ar ao mesmo tempo.
Em entrevistas posteriores, Burrows também falou sobre sua identidade judaica. Em 2023, após publicar a autobiografia, ele conversou com a revista da Jewish United Fund, de Chicago. “Tenho orgulho da minha herança judaica. Isso certamente ajudou com o humor”, disse na ocasião.
Ele também contou que seus pais perguntaram se ele queria fazer uma cerimônia de bar mitzvah, mas que a resposta seria “não”, e que ele só realizou a cerimônia aos 47 anos — além de lembrar que, segundo ele, os irmãos Charles diziam que ele era o único homem que conheciam que fez bar mitzvah aos 47 e perdeu o cabelo aos 13.
Legado que atravessa séries e gerações
Burrows também participou de projetos além da direção tradicional. Em 2019, foi produtor executivo de apresentações ao vivo de “All in the Family” e “The Jeffersons”, com atores recriando episódios de comédias dos anos 1970.
A longevidade do trabalho dele, somada ao impacto cultural das séries, ajudou a consolidar um estilo de comédia que continua sendo referência.
O agente Rick Rosen afirmou que Burrows foi “o maior diretor de comédia televisiva da história do meio”. Segundo Rosen, ele dirigiu os programas mais icônicos e definidores de gerações, sempre com postura de cavalheiro e com a honra de representá-lo.
Burrows foi casado em 1997 com Debbie Easton, que ele conheceu quando ela trabalhava como cabeleireira em “Frasier”. Ele teve filhas — Kat Schatzow, Ellie Gluck e Maggie Burrows — do primeiro casamento com Linda Solomon, que morreu em 2004. A enteada Paris veio do casamento anterior de Debbie.
Ele também tinha uma irmã, Laurie Burrows Grad, e sete netos. Ao deixar o mundo, Burrows deixa um repertório de séries que ajudaram a definir o que o público entende por sitcom: humor com humanidade, personagens com verdade e cenas construídas com precisão.
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Fonte: timesofisrael



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