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Antes de fundar o lendário Studio Ghibli, Hayao Miyazaki passou por várias casas importantes da animação japonesa, incluindo Toei Animation, A-Production e Nippon Animation. Mas, segundo o designer de personagens Yoshiharu Sato — colaborador de Miyazaki em obras como Meu Amigo Totoro e Porco Rosso — uma das saídas mais marcantes de sua carreira aconteceu por causa de um trabalho que ele simplesmente não suportava: Anne of Green Gables.
A revelação veio em uma entrevista recente ao Anime News Network, na qual Sato relembrou sua juventude profissional ao lado de Miyazaki, Isao Takahata e Yoshifumi Kondo, pilares da animação japonesa. No final da década de 1970, a coleção “World Masterpiece Theater”, da Nippon Animation, adaptava clássicos da literatura infantil em séries de TV — e foi ali que um choque criativo levou Miyazaki a mudar sua trajetória para sempre.
Hayao Miyazaki Anne of Green Gables: quando a protagonista não inspira o diretor
Lançada em 1979, a adaptação de Anne of Green Gables colocou Miyazaki como responsável pelos layouts e pelo planejamento de cenas, trabalhando novamente ao lado do diretor Takahata após o sucesso de Heidi. Mas havia um problema: Miyazaki não tinha qualquer afinidade com Anne Shirley.
Segundo Sato, um membro da equipe chegou a comentar — meio em tom de brincadeira — que “Miyazaki-san saiu porque não gostava de garotas como Anne”. Embora simplificada, a observação parece ressoar com algo maior: as fortes convicções do diretor sobre como personagens femininas devem ser retratadas.
Miyazaki sempre preferiu heroínas determinadas, corajosas, práticas e moralmente ativas. De fato, quase toda a filmografia do diretor é protagonizada por mulheres que moldam o próprio destino: de Nausicaä a Chihiro, de Kiki a San. Anne, por outro lado, é mais contemplativa, idealista e emotiva — características que talvez não encaixassem no modelo heroico que Miyazaki aspirava desenvolver naquela fase.

Heidi, Anne e o contraste criativo observado por Yoshiharu Sato
Durante a entrevista, Sato explicou que a maneira como Takahata retratou Heidi e Anne era completamente distinta. Heidi seria, segundo ele, mais “relacionável” e alegre, enquanto Anne apresentava comportamentos e sensibilidades que ele próprio teve dificuldade em compreender.
Curiosamente, os personagens coadjuvantes — Marilla e Matthew Cuthbert — ressoaram mais com Sato do que a protagonista, algo que indica desafios criativos dentro da equipe da época. Para artistas acostumados com personagens mais diretos e emocionalmente transparentes, Anne representava um tipo diferente de complexidade.

A ascensão de Miyazaki após Anne of Green Gables
Em 1979, o mesmo ano da adaptação televisiva, Miyazaki lançou Lupin III: O Castelo de Cagliostro, seu primeiro filme como diretor solo. Nele, surge Clarisse — uma jovem que, embora capturada por um vilão poderoso, demonstra bravura e protagonismo ao arriscar a própria vida para ajudar Lupin.
Sato recorda ter pensado: “Ah, então é esse tipo de garota que Miyazaki gosta”. Clarisse, ainda que mais dócil que futuras heroínas do diretor, possui agência, pureza e coragem — atributos que apareceriam em todas as protagonistas de Miyazaki dali em diante.
Após essa experiência, Miyazaki mergulhou em projetos autorais: Nausicaä do Vale do Vento (1984), O Castelo no Céu (1986) e, claro, a fundação do Studio Ghibli, que redefiniria a animação mundial com personagens femininas fortes e inesquecíveis.
A influência duradoura dos primeiros anos de Miyazaki
Mesmo sem amor por Anne, o período na Nippon Animation foi formativo para Miyazaki e seus colegas. Yoshiharu Sato afirma se sentir “sortudo” por ter aprendido com o diretor naquele período turbulento e criativo. O contraste entre Anne e as futuras heroínas de Ghibli ajuda a entender não apenas por que Miyazaki saiu daquele projeto, mas por que ele desenvolveu uma visão tão singular sobre personagens femininas — uma visão que se tornaria marca registrada da Ghibli.
No fim, a rejeição a Anne não foi um rompimento, mas uma virada de caminho que levou Miyazaki a criar as protagonistas que definiram sua carreira e encantaram gerações.





