Mais uma morte brutal, ou talvez duas, ou três, em algum recanto remoto do outback australiano. Em The Killings at Parish Station, cientistas foram encontrados mortos em junho, e a explicação parecia oscilar entre culto e interferência extraterrestre. Agora, em Treasure & Dirt, a série de seis episódios aposta em um tipo de choque diferente, ainda que igualmente perturbador: um homem em uma cidade de mineração de opalas tem a cabeça separada do corpo, e o detalhe mais absurdo é que ela permanece ao alcance, no colo dele. A partir desse gatilho, o programa promete um “caso labiríntico, sem respostas fáceis”, e, embora a frase soe genérica, a execução entrega algo raro no gênero.
Co-produzida pela BBC e dirigida por Madeleine Gottlieb, a produção da ABC não se limita a seguir o roteiro previsível de uma investigação policial. O que sustenta o interesse do espectador não é apenas a busca pelo responsável, mas a sensação de que a própria cidade, Nulla, funciona como um personagem. A série tem um alcance cinematográfico incomum para dramas de crime na televisão, e os roteiristas Matt Cameron e Kate Mulvany, adaptando o romance homônimo de Chris Hammer, reorganizam elementos familiares do gênero de maneira imprevisível. O resultado é uma história que parece ao mesmo tempo policial e onírica, com um clima de estranhamento que vai se acumulando cena após cena.
O núcleo da trama acompanha o detetive Ivan Lucic, interpretado por Michael Dorman. Ele não é exatamente um investigador “padrão” de procedimentos, daqueles que chegam, fazem perguntas, coletam evidências e fecham o caso com eficiência mecânica. Quando Lucic desembarca em Nulla, uma cidade fictícia sustentada pela mineração de opalas, a recepção já deixa claro que ali as regras não são as mesmas. O gerente do aeroporto, com naturalidade desconcertante, pergunta se ele está na cidade por causa da decapitação. A frase funciona como uma espécie de senha, indicando que o crime é parte do cotidiano local, ou pelo menos parte do que se fala sem espanto.
Lucic é acompanhado pela detetive iniciante Nell Buchanan, vivida por Liv Hewson. A dupla começa a investigação tentando localizar a pessoa que fez a denúncia do corpo. Essa testemunha é descrita como “ratter”, termo usado para se referir a ladrões que, segundo Buchanan, “se esgueiram pela mina à noite para roubar opalas enquanto você dorme”. A imagem é ao mesmo tempo cômica e sombria, como se a série estivesse brincando com a ideia de que até o folclore local tem dentes. O humor, no entanto, não é gratuito. Ele serve para evidenciar como Nulla normaliza o absurdo.
Uma cidade com leis próprias, e um crime que não cabe em explicações simples
Enquanto a investigação avança, a série apresenta uma camada social que vai além do mistério. O sargento sênior Pat Richter, interpretado por Sarah Peirse, defende uma forma de “autopoliciamento” em Nulla. A proposta não é apenas uma estratégia operacional, mas um modo de vida. Há costumes, acordos tácitos e regras não escritas que moldam o comportamento de todos, e isso faz a cidade parecer outro país dentro da Austrália. A sensação é de que a investigação policial, por mais que siga procedimentos, está sempre esbarrando em uma realidade paralela.
Essa construção dialoga com uma tradição de produções que usam locais “fora do mapa” como universo próprio. Treasure & Dirt se aproxima do espírito de séries recentes como Deadloch e Population 11, além de ecos de filmes clássicos como The Cars That Ate Paris, Welcome to Woop Woop e Wake in Fright. Não se trata apenas de cenário exótico. O interior australiano, aqui, funciona como um mecanismo narrativo, capaz de distorcer expectativas e tornar o mundo menos legível.
O tom da série é particularmente eficaz por ser sutil. Não é um surrealismo escancarado, como em algumas obras que fazem da irrealidade o centro do espetáculo. Em Treasure & Dirt, o estranhamento é como uma falha no sistema, algo que parece errado em cada cena, mesmo quando nada “acontece” de forma sobrenatural. A fotografia e a direção de arte ajudam a sustentar essa impressão. A cidade tem um aspecto gasto, desbotado, como se o tempo tivesse deixado marcas físicas. O trabalho do cinematógrafo Edward Goldner contribui para um visual esparso, mas carregado de significado, enquanto a edição de Tyson Williams mantém disciplina e, ainda assim, deixa momentos respirarem.
O prazer da série está em conhecer Nulla
Há um ponto que se destaca para quem assiste: o maior prazer da série não está somente no crime, nem mesmo na tentativa de decifrar quem o cometeu. O encanto está em aprender como Nulla funciona. A produção dedica atenção intensa ao modo como a cidade se organiza, às relações entre personagens e ao que cada um parece esconder. Essa escolha transforma a experiência do espectador. Em vez de assistir a uma história sobre um lugar, o programa faz o público explorar o lugar como se estivesse entrando em uma realidade própria.
Entre os moradores, surgem figuras memoráveis. O comerciante de opalas conhecido como “The Irishman”, interpretado por Dean O’Gorman, é um exemplo de como a série mistura negócios e mistério. Há também “Man Mountain”, vivido por Nathan Jones, uma presença física imponente que remete ao imaginário de personagens de ação, mas que, em Nulla, ganha outra função. O bilionário de tecnologia Robby Inglis, interpretado por Eamon Farren, adiciona uma camada de poder e influência que contrasta com a precariedade do ambiente. E David “The Seer”, interpretado por Thomas M Wright, surge como uma figura de gravidade crescente, um líder de culto que se torna cada vez mais relevante conforme a trama se aproxima do núcleo do enigma.
Se existe um personagem que resume a estranheza de Nulla, ele atende pelo nome de “Mayor”, o autoproclamado prefeito da cidade. Mark Mitchinson interpreta a figura com uma combinação rara de excentricidade e naturalidade. A primeira aparição é quase surreal: ele está em um spa ao ar livre, tomando uma piña colada em um banho de cores vibrantes, como se estivesse em um comercial de bem-estar. Em outra produção, esse tipo de comportamento poderia virar caricatura. Gottlieb, porém, dirige o elenco para que o “normal” continue existindo dentro do mundo torto. O efeito é que o humor aparece, mas sem destruir a tensão. A estranheza não é um truque, é uma regra.
Entre lentidões pontuais e uma aposta que vale o tempo
Como toda série que tenta construir um universo próprio, Treasure & Dirt tem seus tropeços. Em alguns momentos, o ritmo desacelera, e certas dinâmicas entre personagens não se encaixam completamente. Ainda assim, esses pontos não chegam a comprometer o conjunto. A impressão geral é de que a produção sabe o que está fazendo quando escolhe não transformar cada cena em uma corrida por respostas imediatas.
O programa parece partir de uma ideia central: os melhores mistérios nem sempre se resumem a descobrir quem cometeu o crime, ou mesmo a entender o crime em si. Às vezes, o verdadeiro enigma está no lugar onde tudo acontece. Nulla, com suas leis informais, seus personagens improváveis e sua atmosfera de mundo levemente deslocado, é exatamente isso. O crime é o começo, mas a cidade é o labirinto.
Para quem procura uma experiência diferente dentro do universo de séries policiais, Treasure & Dirt oferece uma combinação incomum de humor, tensão e cinema. A direção de Gottlieb e o cuidado com a ambientação fazem com que a série pareça menos uma investigação tradicional e mais uma imersão em um território que não se deixa traduzir facilmente. E, talvez por isso, a curiosidade do espectador não diminua com o avanço dos episódios. Ela muda de foco, passando do “quem fez” para o “por que esse mundo permite que isso aconteça”.
Quando assistir: Treasure & Dirt vai ao ar na ABC aos domingos, às 20h30, e pode ser assistida integralmente no ABC iView. Há previsão de exibição no Reino Unido em data posterior.
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Fonte: theguardian



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