Há antologias de anime que funcionam como vitrine de estilos, e há aquelas que parecem costurar ideias distantes em um único tecido emocional. Memories (1995) pertence ao segundo grupo. Disponível para streaming na Prime Video, o filme reúne três curtas de ficção científica dirigidos por nomes centrais da animação japonesa, com roteiros e concepções que atravessam temas como tecnologia, memória, alienação e violência fabricada. Mesmo quem já conhece obras como Akira, Perfect Blue e Paprika pode passar por Memories sem perceber o quanto ele é, ainda hoje, um daqueles raros títulos que parecem ter sido feitos para durar.
O ponto de partida é a própria ideia de antologia. O gênero permite que diferentes narrativas coexistam, mas Memories faz mais do que alternar histórias. Ele cria um clima comum, uma sensação de estranhamento que conecta as partes por meio de imagens surrealistas e pela forma como cada segmento observa a relação humana com sistemas que escapam do controle. A tecnologia aparece não como promessa, e sim como espelho deformado do desejo e da destruição.
De Robot Carnival a Memories: a mesma obsessão por tecnologia
O filme surge oito anos depois de Robot Carnival (1987), também uma antologia marcada por talentos como Katsuhiro Otomo, Kōji Morimoto e Hiroyuki Kitazume. Naquele trabalho, os segmentos exploravam temas variados, mas eram unidos por imagens oníricas que retratavam a dependência humana de máquinas e as consequências dessa dependência. Em Memories, Otomo volta a esse terreno, agora com três histórias que aprofundam uma relação ainda mais tensa: a forma como a tecnologia amplifica nossas fraquezas, nossas memórias e nossa capacidade de transformar pessoas em ferramentas.
O elenco criativo de Memories é um mapa de influências. Morimoto, que atuou como animador em Akira, Tensai Okamura, responsável por storyboards em Neon Genesis Evangelion e My Hero Academia, e Satoshi Kon, falecido em 2010, autor de roteiros e direção em obras que redefiniram o modo como animação pode tratar psicologia e realidade. A presença de Kon é especialmente relevante porque Memories não se limita a “mostrar ideias”, ele as transforma em experiência sensorial.
“Stink Bomb”: sátira com um vazio que incomoda
Entre os três curtas, Stink Bomb é o mais caótico à primeira vista. Dirigido por Okamura, o segmento acompanha Nobuo Tanaka, um técnico de laboratório que, em meio a uma espécie de neblina causada por uma gripe, acaba engolindo acidentalmente pílulas experimentais. O resultado é absurdo, quase cartoon, mas o curta não fica apenas na piada. Quando a “dose” reage ao corpo, Nobuo se transforma literalmente em uma bomba de mau cheiro, capaz de matar pessoas ao redor.
O tom é satírico, e há momentos que parecem feitos para provocar riso nervoso. Ainda assim, o curta encontra força em algo menos confortável. Depois da transformação, Nobuo passa a viver um isolamento que não é só físico, é existencial. A história sugere que, quando o corpo vira arma, a pessoa deixa de ser sujeito e passa a ser efeito. A comédia, nesse caso, funciona como porta de entrada para uma reflexão mais amarga sobre acidentes, negligência e o modo como experimentos “fora de controle” atingem quem está no caminho.

“Cannon Fodder”: um plano contínuo para expor a engrenagem da guerra
Se Stink Bomb aposta no choque, Cannon Fodder aposta na forma. O curta é dirigido por Otomo e se concentra em uma cidade cercada por muralhas que precisa manter, de forma incessante, canhões gigantes para sobreviver a uma guerra permanente. O atrativo central do segmento está na construção visual: ele cria a ilusão de um único plano contínuo, acompanhando o cotidiano dos moradores enquanto carregam e disparam as armas.
O efeito é hipnotizante. O cenário, marcado por crateras e por uma paisagem devastada, permanece envolto em fumaça espessa. Com isso, o inimigo se torna uma ausência. A pergunta paira no ar, quase sem ser dita: estão realmente lá? Ou a guerra é apenas um ritual que precisa ser repetido para manter a máquina funcionando, mesmo sem sentido claro?
O curta também é satírico, mas a crítica de Otomo mira mais fundo. A história denuncia a exploração do trabalhador e o horror do conflito fabricado, em que pessoas comuns são empurradas para uma engrenagem que não escolhe vítimas, apenas produz resultados. A beleza do plano contínuo, com seus elementos visuais mais ousados, acaba servindo ao argumento. A estética não suaviza a violência, ela a torna inevitável, como se o espectador estivesse preso no mesmo ciclo.
“Magnetic Rose”: memória como prisão e desejo como armadilha
Apesar de Stink Bomb e Cannon Fodder serem memoráveis, é Magnetic Rose que eleva Memories a um nível de excelência. O segmento é baseado no roteiro de Kon e na história de Otomo, e funciona como o coração emocional do filme. A narrativa começa com a chegada de uma nave cargueira ao espaço, chamada The Corona, que recebe um sinal de socorro. Dois engenheiros, Heintz e Miguel, entram na estação espacial para investigar.
O que eles encontram é uma espécie de mansão decadente em diferentes estágios de ruína. Dentro desse espaço, hologramas de uma cantora de ópera misteriosa, Eva Friedel, orientam o caminho dos personagens. A partir daí, o curta vai revelando camadas, como se cada cena fosse um pedaço de lembrança se reorganizando. A história se transforma em uma lição sobre os perigos da memória obsessiva, especialmente quando o desejo pelo passado deixa de ser lembrança e passa a ser prisão.
O filme sugere que, quando queremos algo com desespero, a realidade e a ilusão podem se confundir. Em vez de iluminar o presente, a lembrança passa a distorcer tudo ao redor. Morimoto, responsável pela direção do segmento, usa animação e design de som para criar um sentimento de desolação que “gruda” na experiência do espectador. Heintz e Miguel, enquanto avançam, parecem cada vez mais desorientados, como se a própria percepção fosse corroída pelo que veem.
Mesmo quando a história não parece “revolucionária” em termos de premissa, Magnetic Rose encontra seu diferencial na execução. Gargoyles que escorrem sangue, estátuas robóticas elegantes e uma atmosfera que parece suspensa no tempo constroem uma narrativa bittersweet, triste e ao mesmo tempo hipnotizante. Há sequências em que uma memória viva se dissolve, derretendo até virar teias de aranha ressecadas. Esses detalhes reforçam como a parceria entre Kon, Otomo e Morimoto consegue dar vida a clichês de ficção científica, transformando-os em algo mais pessoal e inquietante.

Por que Memories costuma ser ignorado
Um dos motivos para Memories ser frequentemente subestimado é o próprio peso do legado dos envolvidos. Kon e Otomo são lembrados, com razão, por obras que mudaram a animação como linguagem. Quando a comparação é com Akira, Perfect Blue ou Paprika, os curtas de Memories podem parecer menores. Só que essa leitura perde o ponto do filme.
Os três segmentos, juntos, formam um conjunto coerente sobre obsessão humana, memória e tecnologia. Cada curta aborda um ângulo diferente, mas todos convergem para a mesma inquietação: o que acontece quando o que deveria ser ferramenta vira destino? O que ocorre quando a lembrança deixa de ser ponte e se torna muro? E quando a guerra, em vez de evento, vira rotina?
Em Memories, essas perguntas não são respondidas com moralismo. Elas aparecem como imagens, ritmos e sensações. É por isso que o filme continua atual. Ele não depende de efeitos “modernos” para causar impacto, porque seu poder está na forma como organiza o estranhamento e na coragem de tratar temas pesados com criatividade formal.
Se você é fã de anime clássico, de ficção científica com olhar crítico ou simplesmente gosta de curtas que deixam eco, Memories merece um lugar na lista. A antologia está disponível na Prime Video, e assistir ao filme é, ao mesmo tempo, reencontrar um pedaço importante da história da animação japonesa e descobrir um título que, por algum motivo, ainda parece passar despercebido.
Memories está disponível para streaming na Prime Video.
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Fonte: polygon



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