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Jaadugar: A Witch in Mongolia estreia na Crunchyroll com “ciência de verdade” no centro da trama

Jaadugar: A Witch in Mongolia estreia na Crunchyroll com “ciência de verdade” no centro da trama
Jaadugar: A Witch in Mongolia estreia na Crunchyroll com “ciência de verdade” no centro da trama
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Jaadugar: A Witch in Mongolia, que começou seu simulcast semanal na Crunchyroll neste sábado, 18 de julho, chega com um diferencial raro mesmo entre as produções que misturam fantasia e história. Na primeira leva do catálogo da plataforma para o Verão de 2026, a estreia do English dub acontece ao mesmo tempo em que a série apresenta uma tese incomum: a protagonista não é uma bruxa, mas o conhecimento científico que ela carrega é interpretado como feitiçaria por um tribunal que não tem ferramentas para avaliá-lo.

O ponto de partida é direto e, ao mesmo tempo, carregado de contexto. A personagem-título, Sitara, é uma menina persa do século XIII que carrega um astrolábio, conhece de cor o Canon of Medicine de Avicena e foi lançada na corte mongol. Diante dela, o mundo político e cultural dos invasores não oferece um vocabulário nem um método para classificar o que ela sabe. O tribunal então faz o que tribunais fazem quando não entendem: reduz o desconhecido a uma categoria conveniente. No caso, “jaadugar”, palavra que significa “mágica” ou “magician” em persa, hindi e urdu, vira o rótulo imposto à jovem.

A série deixa isso claro já no primeiro episódio. O termo não é um detalhe folclórico, mas a própria ideia central do enredo. A trama sustenta a tese com um cenário historicamente plausível, em que disciplinas como medicina, astronomia e matemática, em vez de serem tratadas como magia, deveriam ser reconhecidas como ciência. Ainda assim, a narrativa mostra como o poder institucional pode transformar conhecimento em ameaça quando ele não se encaixa no repertório local.

O que a série mostra sobre o século XIII e por que isso importa

O enredo se passa em Tus, na Pérsia, região que corresponde ao nordeste do Irã atual, por volta de 1213 da era comum. O período é frequentemente associado ao auge do que historiadores chamam de Idade de Ouro Islâmica, quando centros de estudo e tradução ajudaram a consolidar e reorganizar saberes de diferentes tradições. Sitara, uma jovem escravizada, é vendida a uma casa de estudiosos. Lá, ela aprende medicina persa, astronomia e matemática, e o aprendizado não aparece como “ornamento” de ambientação, mas como motor dramático.

Quando ela é levada à corte mongol, a série desloca o conflito para um lugar específico: não é uma guerra entre mundos mágicos e mundos reais, e sim um choque entre sistemas de conhecimento. A tensão nasce do “gap” entre o que a protagonista sabe e o que a corte consegue interpretar. Em vez de inventar um problema fictício, a obra se apoia em uma diferença histórica real, algo que a própria prévia do Anime News Network apontou ao descrever o cenário como pouco explorado, mas fértil em desenvolvimentos de matemática, artes e ciências.

Science SARU, Naoko Yamada e a escolha de uma linguagem visual experimental

Jaadugar é produzida pelo estúdio japonês Science SARU, agora pertencente ao grupo TOHO Animation. A empresa foi fundada em 2013 pelo diretor Masaaki Yuasa e pela produtora Eunyoung Choi. Ao longo dos anos, o estúdio construiu uma reputação por experimentar com linguagem visual, fugindo do padrão mais conservador que domina parte do mercado de animação.

Naoko Yamada, que já esteve em Kyoto Animation e dirigiu A Silent Voice (2016), retorna à Science SARU como diretora executiva. Sua trajetória inclui também The Colors Within (2024). Não é a primeira vez que ela trabalha com a equipe: Yamada dirigiu The Heike Story (2021) para a Science SARU antes mesmo de Jaadugar ser anunciado.

Na direção principal, está Abel Góngora, conhecido por dirigir a segunda temporada de DAN DA DAN, conforme anunciado pela Crunchyroll em maio de 2026. A combinação entre o estilo de Yamada e a energia estrutural de Góngora é um dos elementos que tornam a proposta mais interessante do que parece no papel. Yamada costuma construir cenas a partir de observações minuciosas do corpo e da presença, enquanto Góngora tende a organizar a narrativa com ritmo e movimento, criando uma sensação de arquitetura em constante transformação.

Além disso, a série foi selecionada para competição no Festival Internacional de Animação de Annecy em março de 2026, um tipo de validação institucional que costuma ser um sinal de que o projeto tem ambição artística antes mesmo de chegar ao público japonês.

Estreia na TV e chegada do dublê em inglês na Crunchyroll

O lançamento no Japão ocorreu em 4 de julho de 2026, com um especial de uma hora em formato de episódio duplo na TV Asahi. A Crunchyroll fez a transmissão simultânea para várias regiões, incluindo América do Norte, Central e do Sul, Europa, África, Oceania, Oriente Médio e a região do CIS, com exceção de Rússia e Bielorrússia.

O simulcast de 18 de julho marca a entrada do English dub na plataforma, algo que até então não estava disponível. A confirmação foi feita pelo The Fandom Post. A dublagem traz Cristina Vee como Sitara e Marwa Elda como Fatima, com direção de Shawn Gann e adaptação de roteiro por Chris Cason. De acordo com o cronograma de lançamentos da Final Weapon, a série deve ter pelo menos 12 episódios.

Em termos de acesso, a obra segue um ritmo semanal, com episódios disponíveis todos os sábados às 12h (horário de referência usado é 12:00 PM ET). A série também conta com legendas em inglês e, além do anime, tem como base o mangá A Witch’s Life in Mongol, publicado em inglês pela Yen Press.

O que há de “científico” no centro da trama: o astrolábio

Um dos aspectos mais marcantes de Jaadugar é a forma como a série trata os instrumentos da protagonista. O mangá que originou a história, de Tomato Soup, contrapõe o astrolábio a um “teto de relógio de sol” usado pelos mongóis. Essa diferença não serve apenas para criar contraste visual. Ela sustenta a lógica do conflito.

O astrolábio, historicamente, é um computador analógico portátil. Seu funcionamento se baseia em uma técnica matemática chamada projeção estereográfica, que permite “achatar” a esfera celeste tridimensional em uma placa plana, preservando relações angulares. Na prática, o instrumento tem partes com funções específicas: a tympan, placa interna, é gravada com o horizonte local e linhas de altitude; a rete, estrutura externa rotativa, traz posições de estrelas e o plano da eclíptica.

Com um astrolábio em mãos, um usuário pode determinar hora local, a altitude de estrelas específicas, horários de nascer e pôr do sol, o comprimento de sombras e até a altura de objetos distantes. Para a prática religiosa, há um ponto crucial: o instrumento permite calcular com precisão a direção de Meca a partir de qualquer localização na Terra. A série enfatiza que ele funciona em qualquer latitude e também à noite, sem depender de arquitetura fixa ou infraestrutura.

Já o “teto de relógio de sol” mongol, por sua vez, é um elemento fixo, gravado no telhado de uma ger (tenda típica). Ele é calibrado para uma única latitude, opera apenas durante o dia e tem aplicação local. Para um império nômade que governava territórios que iam da região da Coreia até partes da Europa Oriental, a diferença de portabilidade e versatilidade entre os instrumentos não era pequena. A série transforma essa lacuna tecnológica em drama, mostrando como um tribunal pode interpretar como “feitiçaria” aquilo que não consegue reproduzir.

O texto também faz uma ponte com a matemática moderna. A projeção estereográfica, além de ser um método histórico, é base para mapeamentos conformes, ramo da análise complexa que aparece na base de técnicas usadas em gráficos 3D, sistemas de coordenadas e projeções em imagens médicas. Em outras palavras, a “magia” do século XIII tem parentesco estrutural com algoritmos que ainda sustentam tecnologias atuais.

Personagens históricas por trás de Sitara e Fatima

Embora Sitara seja uma personagem ficcional, a série se apoia em uma figura histórica. Fatima, que morreu em 1246, foi uma mulher muçulmana xiita originária de Tus, no nordeste do Irã, escravizada durante a invasão mongol do Império Corásmio e levada ao centro do poder mongol em Karakorum. Ela acabou servindo Töregene Khatun, regente do Império Mongol entre 1242 e 1246.

Töregene é retratada como uma das figuras mais poderosas do século XIII. Após a morte de seu marido, Ögedei Khan, em 1241, ela dispensou ministros e nomeou os próprios, governando um dos maiores impérios contíguos da história. A série também destaca que ela postergou por cinco anos a eleição do próximo Grande Khan. Nesse cenário, Fatima aparece como a conselheira mais próxima, com acesso constante ao acampamento e influência sobre a corte.

Em 1246, quando Güyük Khan, filho de Töregene, assume o poder, Fatima é acusada de feitiçaria, especificamente por ter causado uma doença em um príncipe mongol. Apesar das tentativas de proteção, ela é capturada, torturada e executada. A acusação funciona como mecanismo de eliminação, mas a dinâmica por trás dela é a mesma que a série nomeia: a corte mongol não tinha um arcabouço para avaliar a medicina empírica persa nos próprios termos, então classificou o que não compreendia como feitiçaria.

Os mongóis não como “bárbaros”, mas como um sistema racional

Outro ponto que diferencia Jaadugar de representações mais simplificadas é a forma como a série trata o Império Mongol. A obra não retrata os mongóis como bárbaros sem método. Pelo contrário, sugere que o sistema militar era racional, organizado e, em muitos aspectos, sofisticado.

O texto destaca a estrutura decimal do exército, baseada em unidades como arban (10 soldados), jagun (100), minqan (1.000) e tumen (10.000). Essa organização, segundo a explicação apresentada, não teria sido inventada por Gêngis Khan, já que confederações turcas anteriores teriam usado modelos semelhantes. O que ele teria feito foi abolir a filiação tribal como critério para atribuição de unidades, distribuindo guerreiros entre grupos decimais independentemente de origem familiar. Para manter coesão, a punição era coletiva, de modo que a deserção de um soldado poderia levar à execução dos demais em uma unidade de dez.

O resultado, na leitura do texto, era uma lealdade ao grupo difícil de comparar com forças feudais europeias, em que a hierarquia de lealdade seguia primeiro o senhor local e depois o rei. A série também sugere que o tumen funcionava como um corpo militar autossuficiente, com comando, suprimentos e logística próprios, algo que lembra estruturas modernas como as brigadas de combate.

Por que esse tipo de história muda o mapa do anime

O anime, como meio, historicamente concentrou muitas de suas fantasias históricas em um triângulo cultural que envolve Japão, China e Europa Ocidental. Nesse contexto, uma narrativa ambientada com seriedade em culturas persas e mongóis do século XIII, com protagonista xiita, instrumentos astronômicos islâmicos e política de corte mongol, é uma escolha pouco comum para estúdios de grande porte.

A decisão da Science SARU, portanto, funciona como sinal de ambição. O estúdio já demonstrou interesse em material histórico fora do eixo mais explorado, como no folclore pan-japonês de The Night Is Short Walk On Girl e na política do período Heian em The Heike Story. Jaadugar amplia essa linha ao apostar em pesquisa e em uma ambientação que não se limita a “decorar” a história.

O mangá, por exemplo, traz detalhes como a representação de abate halal e a tensão cultural com tabus mongóis ligados à preservação do sangue. A diferença entre o astrolábio e o teto de relógio de sol também aparece como elemento narrativo, e a escolha de uma atriz persa para um papel relevante, Farahnaz Nikray, reforça a tentativa de tratar o contexto com respeito e especificidade, como apontaram análises do episódio 1 em veículos especializados.

Com a seleção para Annecy e o simulcast no mesmo dia em mais de 180 países, a série passa a disputar espaço com narrativas mais tradicionais, mas com uma proposta que, no fundo, conversa com o próprio tema do enredo. A transmissão simultânea, ao colocar públicos distantes em contato com a mesma história, ecoa a ideia de transmissão de conhecimento que a obra dramatiza.

Jaadugar: A Witch in Mongolia está disponível semanalmente na Crunchyroll, com episódios aos sábados às 12:00 PM ET, legendas e dublagem em inglês. O mangá que originou a série pode ser encontrado em inglês pela Yen Press com o título A Witch’s Life in Mongol.


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Fonte: techtimes

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