Índice
- O sucesso não impediu a sensação de ritmo “arrastado”
- Uma fórmula que funcionou — até começar a cansar
- Desenvolvimento de personagens: quando a mudança parece lenta
- Magia bem explicada, mas pouco diferente do que já existe
- Pouca ação para quem veio pelo “calor” das batalhas
- Protagonista poderosa demais reduz o risco
- Personalidade distante e emoções “secas”
- Demônios sem nuance: quando o vilão não acompanha o herói
- O que fica depois do debate
Frieren: Beyond Journey’s End virou um dos maiores fenômenos do anime na década atual e, para muita gente, já entrou no grupo de “clássicos modernos”. A série ganhou elogios globais por transformar uma fantasia tradicional em algo mais contemplativo, com personagens marcantes, animação caprichada e um ritmo que privilegia emoções e memórias.
Em plataformas como o MyAnimeList, o título chegou a ultrapassar Fullmetal Alchemist: Brotherhood no topo do ranking, com nota 9,2/10. Já a segunda temporada aparece, até o momento, em posição mais abaixo, com 8,9/10.
Mas, como acontece com qualquer obra muito celebrada, também surgiram críticas. E elas não se resumem a “gosto pessoal”. Parte do público afirma que Frieren: Beyond Journey’s End, apesar de bonita e bem produzida, pode parecer lenta demais, repetitiva em sua estrutura e, em alguns pontos, pouco ousada — especialmente quando o assunto é desenvolvimento de personagens, sistema de magia e profundidade dos antagonistas.
O debate ganhou força com o avanço da história e com a expectativa criada em torno de uma obra que, para muitos, parecia destinada a dominar prêmios e conversas do ano.
O sucesso não impediu a sensação de ritmo “arrastado”
Um dos principais motivos para a insatisfação é o ritmo. Frieren é frequentemente descrita como uma série de atmosfera confortável, com momentos de “slice of life” e um tom relaxado. Só que, para parte dos espectadores, essa escolha estética acaba virando monotonia.
A crítica mais recorrente é que as missões paralelas (as chamadas side-quests) avançam devagar demais, enquanto o enredo principal parece sempre distante.
Há ainda um detalhe que pesa na percepção: em geral, cada episódio adapta dois capítulos do mangá e inclui cenas adicionais para ampliar ação ou diálogo. Para quem busca uma narrativa mais direta, isso pode reforçar a impressão de que “quase nada acontece” no tempo de tela.
O resultado é um paradoxo: a série que conquista pelo cuidado com a jornada também pode frustrar quem espera progressão mais constante.
Uma fórmula que funcionou — até começar a cansar
Quando Frieren estreou em 2023, a recepção foi amplamente positiva. A proposta de olhar para a história depois da morte do herói lendário já era, por si só, uma forma de renovar o gênero.
Ainda assim, depois de uma temporada inteira com 28 episódios, parte do público passou a notar um padrão mais previsível.
Segundo os críticos, muitos episódios seguem uma estrutura recorrente: a chegada a um novo local, um flashback do tempo de Frieren com Himmel e o grupo de heróis, e uma conexão paralela que liga o passado ao presente.
Existem exceções, como o Arco do Exame de Magos de Primeira Classe na primeira temporada, mas a segunda temporada teria reforçado essa repetição até o ponto de parecer menos surpresa e mais rotina.
Em outras palavras: a fórmula que ajudou a dar identidade ao anime pode, com o tempo, diminuir o impacto de cada episódio. Para quem acompanha com expectativa de viradas e evolução acelerada, a sensação é de que o formato se repete mesmo quando a história tenta manter o interesse com variações pontuais.
Desenvolvimento de personagens: quando a mudança parece lenta
Outra crítica recorrente é que o desenvolvimento dos personagens demora tanto que, na prática, pode parecer inexistente. A série tem momentos de humor, carisma e potencial para aprofundar relações. O problema, para parte do público, é a percepção de que essas mudanças não se traduzem em transformação visível ao longo do tempo.
Frieren, por exemplo, é apresentada como uma maga elfa com postura serena e maturidade — mas também com traços curiosos que conquistam o espectador.
Depois da morte de Himmel, ela decide valorizar o presente e cuidar das relações atuais. Só que, segundo os críticos, a personagem teria pouco espaço para evoluir de forma concreta: ela passa muito tempo lembrando do passado e apresentando Fern e Stark a lugares que já visitou.
Para quem espera que a narrativa mostre consequências claras e mudanças emocionais mais evidentes, a impressão pode ser de estagnação. E, quando a série aposta em sentimentos e introspecção, qualquer sensação de “pouca evolução” tende a afetar também o impacto das cenas mais emocionais.
Magia bem explicada, mas pouco diferente do que já existe
O sistema de magia de Frieren é descrito como baseado em prática e experiência, com poder ligado a mana. Também há a ideia de que certos tipos de magia são ensinados apenas a pessoas específicas, como no caso de magias associadas a sacerdotes. Em termos de coerência, a série parece sólida.
O questionamento é outro: para alguns espectadores, o anime não oferece nada realmente novo ou marcante quando comparado a outras obras do gênero. A magia seria estruturada de maneira “plana”, com semelhanças com a lógica de jogos de RPG.
Em comparação com títulos como Witch Hat Atelier, por exemplo, a sensação seria de que Frieren não explora o tema com a mesma ousadia.
Isso não significa que o anime seja ruim — significa que, para quem busca inovação, a magia pode soar familiar demais. E, quando a obra é tão elogiada por sua abordagem “diferente” da fantasia, qualquer percepção de repetição em elementos centrais tende a ganhar destaque no debate.
Pouca ação para quem veio pelo “calor” das batalhas
Frieren tem, sim, sequências de ação memoráveis. A série costuma ser elogiada por como a trilha sonora acelera e destaca os momentos de feitiços, com a música de Evan Call ajudando a dar ritmo às cenas.
O problema apontado pelos críticos é a frequência: as batalhas seriam raras demais para quem assiste esperando mais confronto e tensão.
Além disso, existe uma expectativa criada pelo próprio marketing e pelas comparações com animes mais voltados à ação, como Solo Leveling e Jujutsu Kaisen. Para parte do público, a promessa implícita era de que a força de Frieren renderia conflitos intensos.
Na prática, as lutas seriam mais “pontas de tempero” do que o prato principal. O resultado é uma frustração: mesmo quando cada batalha é bem feita, o conjunto pode parecer desequilibrado para quem quer mais impacto físico e menos contemplação.
Protagonista poderosa demais reduz o risco
Outro ponto que aparece no debate é o efeito da protagonista extremamente forte. A série apresenta Frieren como alguém capaz de resolver confrontos com eficiência, o que, para alguns, diminui a sensação de perigo.
Se a vitória parece praticamente garantida, a tensão dramática perde força. A crítica costuma ser comparativa: assim como Sung Jinwoo, de Solo Leveling, a aura de poder absoluto atrai parte do público, mas também pode retirar algo essencial da narrativa — o medo de perder.
Em Frieren, a situação se agrava porque Fern, como aprendiz talentosa, reforça ainda mais o grupo. Com isso, os combates tendem a soar como etapas inevitáveis, não como desafios imprevisíveis.
Personalidade distante e emoções “secas”
Frieren é uma personagem que combina serenidade com um lado peculiar, o que a torna memorável. Ainda assim, há quem argumente que sua postura mais fria e desprendida prejudica as cenas mais emocionais.
A leitura dos críticos é que, por vezes, a personagem não reage com intensidade suficiente para que o espectador “sinta junto” o peso do momento.
Mesmo fãs mais fiéis teriam dificuldade em defender como a distância emocional da protagonista torna certos beats dramáticos rasos. Em uma obra que se apoia tanto em memória, luto e reflexão, esse tipo de percepção pode ser determinante para a experiência do público.
Demônios sem nuance: quando o vilão não acompanha o herói
Entre as críticas mais duras está a forma como a série retrata os demônios. Em muitas histórias, seres demoníacos ou “próximos de demônios” costumam ter nuances, motivações e camadas que complexificam o conflito.
Em Frieren, a acusação é que os demônios são simplesmente “o mal”, com pouca profundidade.
Há também um debate sobre possíveis implicações ideológicas. Em algum momento, circularam críticas de que a representação dos demônios daria um tom fascista ao anime. Essas alegações foram contestadas, mas o argumento central dos críticos permanece: mesmo que a intenção não seja essa, a falta de histórias que tragam novidade sobre esses antagonistas reduz a profundidade do universo.
Em resumo, a série seria forte em atmosfera, personagens e construção de mundo — mas, quando chega a hora de sustentar seus maiores vilões com complexidade, a impressão é de que eles ficam unidimensionais. E, como costuma ser dito, a qualidade de um herói depende também da força do seu antagonista.
O que fica depois do debate
Chamar Frieren: Beyond Journey’s End de “superestimada” é, para muitos, uma provocação. Para outros, é um jeito de resumir uma frustração: a série é tecnicamente impecável e emocionalmente cuidadosa, mas pode não atender ao que parte do público espera de uma fantasia moderna — ritmo mais acelerado, evolução mais evidente e antagonistas com mais camadas.
O fato é que o anime continua sendo um dos mais relevantes do momento, com fãs apaixonados e uma reputação consolidada. Ao mesmo tempo, as críticas mostram que a obra não é unanimidade. Em um cenário em que o público tem acesso a muitas opções e comparações constantes, é natural que até um fenômeno global seja questionado conforme a história avança.
Se você ama Frieren pelo que ela é — uma jornada de memórias e humanidade — talvez as críticas não mudem sua percepção. Mas, se você busca mais ação, mais risco e mais surpresa, vale considerar os argumentos do debate antes de esperar que a série entregue exatamente o tipo de fantasia que você gosta.
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Fonte: CBR




