O final de Cyberpunk: Edgerunners ficou marcado por partir o coração de muitos fãs — e, segundo o roteirista principal do anime, existia um desfecho ainda mais cruel para David Martinez. Em uma fase inicial do desenvolvimento, a equipe discutiu um final alternativo que, nas palavras do próprio criador, seria uma “sentença pior do que a morte”.
Em entrevista ao Anime Corner, Bartosz Sztybor, roteirista líder do projeto, contou que a equipe avaliou diferentes caminhos narrativos antes de fechar a versão final. Entre as alternativas, havia uma opção em que David não morre completamente. Em vez disso, a megacorporação Arasaka tomaria o que restasse dele, o submeteria e o transformaria em um tipo de robô de combate sem alma.
“We had an ending option where David doesn’t completely die. The megacorporation Arasaka takes what’s left of him, subjugates him, and turns him into a soulless combat robot. In this form, he is sent to fight in Africa or South America as part of ongoing corporate wars.”
Bartosz Sztybor
O conceito descrito por Sztybor é especialmente cruel porque desloca o foco do sofrimento para a perda total de identidade. Não se trataria apenas de sobreviver, mas de ser reduzido a uma ferramenta. Nesse cenário, David seria enviado para lutar em regiões como África ou América do Sul, atuando em guerras corporativas contínuas — um destino que o colocaria, de forma permanente, do lado oposto ao que ele enfrentou durante toda a vida.
Na prática, a ideia funcionaria como uma inversão ainda mais amarga do desfecho canônico. No final que chegou às telas, David enfrenta uma conclusão trágica, mas ainda existe um sentido emocional e narrativo: a história fecha com a sensação de que o personagem, apesar do destino cruel, não é apagado como pessoa. Já no final alternativo, a morte seria substituída por uma forma de existência sem vontade própria, sem liberdade e sem qualquer resquício de quem ele foi.

Sztybor deixa claro que essa opção não foi incorporada à versão final do anime. E, pelo tom da declaração, a equipe parece ter entendido que transformar David em uma “arma sem rosto” seria uma espécie de punição definitiva — não apenas pela violência, mas pela anulação total da individualidade. Em Cyberpunk, onde a tecnologia e o poder corporativo frequentemente corroem a humanidade, esse tipo de destino encaixa perfeitamente no universo. Ainda assim, a escolha de não seguir por esse caminho sugere que os criadores buscaram um equilíbrio entre a dureza do mundo e a forma como a tragédia deveria ser sentida pelo público.
O que torna essa revelação ainda mais relevante é o impacto que Cyberpunk: Edgerunners teve na cultura pop desde o lançamento. A série se tornou um fenômeno por unir narrativa intensa, estética marcante e uma leitura emocional do cyberpunk: não é apenas sobre tecnologia e violência, mas sobre escolhas, lealdade e o custo de tentar escapar de um sistema que já decidiu o destino de muita gente. Nesse contexto, a alternativa descrita por Sztybor funciona como um lembrete do quanto o universo do anime é implacável — e de como, mesmo dentro das opções criativas, os roteiristas precisaram decidir qual tipo de dor o público deveria carregar ao final.

Um destino “pior do que a morte” e o que isso diz sobre o tema do anime
Quando o roteirista fala em “fate worse than death”, ele está apontando para uma ideia central do cyberpunk: em muitos casos, o pior não é morrer, mas ser transformado em algo que não controla mais a própria vida. A proposta da Arasaka de “pegar o que restou” de David e convertê-lo em um robô de combate sem alma é, ao mesmo tempo, literal e simbólica. Literal porque envolve uma transformação física e tecnológica. Simbólica porque representa a captura de uma identidade — o personagem deixa de existir como sujeito e passa a existir como função.
Isso também ajuda a explicar por que o final canônico, apesar de trágico, foi tão discutido. A série não evita o sofrimento; ela o organiza para que faça sentido dentro da jornada de David. Ao mesmo tempo, a existência de um final alternativo ainda mais cruel reforça que a equipe tinha consciência do peso emocional do desfecho. Em outras palavras: não foi “acaso” ou “fatalidade narrativa”. Houve escolhas, debates e decisões sobre qual mensagem o anime queria deixar.

Próximo capítulo: segunda temporada já está em produção
Enquanto fãs relembram o impacto do final, a franquia já caminha para o futuro. Cyberpunk: Edgerunners terá uma segunda temporada, e a produção está em andamento. De acordo com as informações divulgadas, um trailer completo do novo ciclo será apresentado em 29 de junho. Depois disso, os criadores devem detalhar mais o projeto em um painel durante a Anime Expo em julho.
Para quem acompanha a série, esse anúncio abre duas frentes de expectativa. A primeira é óbvia: ver como a história continuará em um universo que já provou ser capaz de causar comoção. A segunda é mais sutil: entender como os temas do anime — poder corporativo, sobrevivência e o preço de tentar mudar o destino — serão tratados novamente. A revelação do final alternativo, inclusive, sugere que os roteiristas continuam dispostos a explorar caminhos sombrios, mas com intenção clara sobre o que deve ser mostrado e o que deve ser evitado.
Por enquanto, o que se sabe é que o legado de David permanece como um marco emocional da série. E, agora, com a confirmação de que existiu uma versão em que ele poderia ter sido transformado em uma arma sem alma, fica ainda mais evidente por que o final que chegou ao público foi tão impactante. Em Cyberpunk, a liberdade é rara. E, às vezes, a tragédia não é apenas perder a vida — é perder a si mesmo.
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Fonte: ixbt.games



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