Índice
- O problema não é a IA, mas o “slop”
- Autenticidade é essencial para jogos de nicho
- IA não substituirá criadores humanos tão cedo
- Limitações técnicas e criativas ainda são grandes
- Uso responsável, não adoção cega
- Uma posição consistente ao longo do tempo
- O futuro: IA como suporte, não substituição
- Um recado direto à indústria
Em meio ao avanço acelerado do uso de inteligência artificial generativa no desenvolvimento de jogos, cresce também a resistência dos jogadores a conteúdos percebidos como genéricos, artificiais ou produzidos “no automático”. Para Yongha Kim, diretor de Blue Archive e CEO da Nexon Games, o problema não está na tecnologia em si, mas na forma como ela vem sendo utilizada. Segundo ele, o público já demonstra sinais claros de cansaço com o que chamou de “AI slop” — conteúdos gerados sem cuidado criativo — e busca cada vez mais autenticidade artística.
As declarações foram feitas em uma entrevista recente ao portal sul-coreano GameMeca, onde Kim comentou diretamente a crescente rejeição a ilustrações e outros materiais criados por IA dentro da indústria de games.
O problema não é a IA, mas o “slop”
Questionado sobre o ressentimento dos jogadores em relação a conteúdos gerados por IA, Yongha Kim afirmou compreender totalmente a reação do público e destacou que isso afeta diretamente a aceitação do conteúdo.
Para explicar seu ponto, ele dividiu a questão em duas frentes. A primeira diz respeito à queda de qualidade causada pelo uso indiscriminado da tecnologia.
Kim utilizou uma analogia bastante direta:
É como um salgadinho cuja embalagem parece incrível, mas cujo conteúdo foi reduzido e substituído por nitrogênio. Naturalmente, o consumidor vai reagir negativamente.
Segundo ele, quando a IA é usada apenas para acelerar produção ou reduzir custos, sem preocupação com o resultado final, o público percebe rapidamente. O visual pode até parecer “polido” à primeira vista, mas falta substância, identidade e intenção criativa.

Autenticidade é essencial para jogos de nicho
O segundo ponto levantado por Kim é ainda mais sensível, especialmente para jogos de nicho e subculturas, como títulos focados em personagens, narrativa e estética própria — exatamente o caso de Blue Archive.
De acordo com o diretor, esse público possui expectativas muito altas em relação à autenticidade criativa. Jogadores querem sentir que há uma visão artística por trás do que consomem, algo que reflita intenção humana, personalidade e escolhas conscientes.
Modelos atuais baseados em transformers ou difusão são apenas simuladores. Eles não têm intenção nem personalidade. Quando tudo é gerado com um simples clique, surge a pergunta: isso realmente expressa a autenticidade do criador?
Essa percepção ajuda a explicar por que parte da comunidade reage de forma negativa a artes, personagens ou até narrativas produzidas majoritariamente por IA, especialmente quando isso é feito de forma explícita ou sem transparência.

IA não substituirá criadores humanos tão cedo
Durante a entrevista, Yongha Kim também foi questionado se acreditava que conteúdos criados por IA poderiam substituir completamente obras feitas por humanos no futuro próximo. Ele fez questão de definir o que considera “futuro próximo” — algo como o ano seguinte — e foi categórico ao responder:
Não.
Segundo ele, a tecnologia ainda está longe de atender às exigências reais de um ambiente de desenvolvimento profissional. Embora a utilidade da IA como ferramenta esteja crescendo, ela não consegue, por si só, entregar o nível de qualidade, consistência e profundidade que estúdios e jogadores esperam.
Kim acredita que, pelo menos no curto prazo, a IA continuará ficando aquém das expectativas quando usada como substituta direta da criatividade humana.

Limitações técnicas e criativas ainda são grandes
O diretor de Blue Archive também detalhou algumas das principais limitações atuais da inteligência artificial generativa, tanto do ponto de vista técnico quanto criativo.
Entre os entraves técnicos, ele citou:
- Falta de aprendizado contínuo real
- Limitações na quantidade de contexto que os modelos conseguem processar
- Desempenho ainda inferior em modalidades além de texto, como imagens, voz e vídeo
- Custos extremamente altos de treinamento e operação
Já do ponto de vista criativo, Kim foi ainda mais crítico. Para ele, a IA atual não consegue propor ideias verdadeiramente novas, algo que vá além do consenso público ou de padrões já existentes.
A pesquisa em IA generativa prioriza resultados que se alinham a respostas verificáveis e ao consenso geral. Isso dificulta a criação de algo realmente inédito.
Além disso, ele destacou um problema recorrente: a inconsistência. Embora a IA possa soar como especialista em determinados assuntos, frequentemente falha em aspectos básicos de senso comum ou gera informações incorretas, conhecidas como “alucinações”.
Uso responsável, não adoção cega
Diante dessas limitações, Yongha Kim defende uma abordagem muito mais cuidadosa e localizada para o uso da tecnologia no desenvolvimento de jogos.
Para ele, o erro está em adotar uma postura generalista do tipo “vamos usar IA para tudo”. O caminho mais saudável seria definir escopos claros, funções específicas e métodos bem delimitados de utilização, sempre com supervisão humana.
Essa visão vai contra a ideia de substituir equipes criativas, e se aproxima mais de um uso instrumental da tecnologia como apoio técnico, e não como fonte criativa principal.
Uma posição consistente ao longo do tempo
As declarações recentes não surgem do nada. Kim já havia se posicionado de forma semelhante em 2025, durante uma palestra intitulada “Desenvolvendo jogos de garotas fofas na era da IA”, apresentada no programa sul-coreano de mentoria criativa de conteúdo.
Na ocasião, ele foi ainda mais direto:
Usuários que gostam de jogos focados em personagens não preferem conteúdo gerado por IA. Eu também sinto uma forte aversão a gastar dinheiro em imagens que simplesmente foram ‘clicadas’ para existir.
Essa fala reforça a ideia de que, especialmente em jogos que dependem de apego emocional aos personagens, o público valoriza o toque humano e a intenção artística.
O futuro: IA como suporte, não substituição
Apesar das críticas, Yongha Kim deixa claro que não é contra o uso de inteligência artificial. Pelo contrário, ele acredita que a tecnologia pode — e deve — ser usada para facilitar o trabalho de quem já está criando.
Segundo ele, o foco deveria estar em melhorar fluxos de produção, reduzir tarefas repetitivas e dar suporte técnico às equipes criativas. Nesse cenário, novos papéis ganham importância dentro dos estúdios, como engenheiros de machine learning e artistas técnicos, capazes de integrar IA de forma responsável e alinhada à visão artística do projeto.
Um recado direto à indústria
As falas do diretor de Blue Archive ecoam um sentimento cada vez mais comum entre jogadores: tecnologia, por si só, não substitui criatividade. Em um mercado saturado de conteúdos rápidos e genéricos, autenticidade se tornou um diferencial valioso.
Para Yongha Kim, ignorar esse desejo do público é um erro estratégico. Jogadores não rejeitam a IA por medo do novo, mas sim quando ela é usada como atalho para reduzir esforço criativo.
Em um momento em que a indústria discute o futuro da criação digital, a mensagem é clara: quem quiser conquistar e manter o público precisará entregar mais do que eficiência — precisará entregar intenção, identidade e alma.
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Fonte: boundingintocomics





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