Índice
- O “Hijab Cosplay” (Hicos) e a adaptação do visual
- Como Lia começou no cosplay e por que escolhe personagens com cuidado
- Desafio de cores e logística: quando o tom não existe em Hong Kong
- De Feixiao a Maomao: o que torna certos cosplays mais difíceis
- Reação do público e busca por mais representação
- Por que o cosplay viralizou: criatividade, conforto e mistura cultural
Uma cosplayer indonésia que vive e trabalha em Hong Kong chamou a atenção na Comic Con 2026 ao recriar o penteado de uma personagem de anime usando hijab no lugar de peruca. As fotos do cosplay, inspiradas na estética de The Apothecary Diaries, circularam nas redes sociais e renderam elogios por criatividade e respeito à identidade religiosa.
De acordo com a reportagem do Sing Tao Headline, publicação irmã do The Standard, a artista Lia Lithuk apareceu como Maomao, personagem do anime de sucesso. Em vez de recorrer a uma peruca para reproduzir o visual, Lia adaptou o próprio hijab para formar o penteado característico da personagem. O resultado chamou atenção tanto pelo acabamento quanto pela ideia de integrar o acessório religioso ao design do personagem.
O “Hijab Cosplay” (Hicos) e a adaptação do visual
O estilo usado por Lia é conhecido como “Hijab Cosplay” ou Hicos. A prática já é adotada por fãs muçulmanas de anime em países do Sudeste Asiático há anos. A lógica é simples, mas exige técnica: em vez de perucas, as participantes dobram e modelam o hijab para reproduzir o formato do cabelo visto em personagens de animação, mantendo ao mesmo tempo a observância das próprias práticas religiosas.
Para além do aspecto estético, o Hicos também funciona como uma forma de pertencimento. Ao adaptar o visual sem abrir mão do hijab, cosplayers conseguem participar de eventos de cultura pop com mais conforto e coerência com a própria identidade. No caso de Lia, a escolha foi ainda mais significativa porque o penteado de Maomao é um elemento muito reconhecível do personagem.
Como Lia começou no cosplay e por que escolhe personagens com cuidado
Lia contou ao Sing Tao Headline que seu interesse por cosplay começou depois que ela participou do evento Animation-Comic-Game de Hong Kong, em 2023. A partir daí, ela passou a buscar maneiras de adaptar fantasias ao que ela é, tanto em termos de identidade quanto de fé.
“Eu comecei a procurar formas de adaptar os figurinos à minha identidade e à minha fé”, disse Lia. Segundo ela, a escolha de personagens não é automática. Como cosplayer que usa hijab, é necessário avaliar com atenção quais personagens fazem sentido para evitar situações de desconforto ou controvérsia.
“Como uma cosplayer de hijab, eu tenho que ter cuidado ao selecionar personagens para evitar controvérsias”, afirmou. Ela explicou que, na prática, costuma encontrar primeiro um hijab que combine com o visual do personagem antes de comprar ou montar a fantasia. Essa ordem ajuda a manter a coerência do look e a facilitar o trabalho de modelagem do acessório.
Desafio de cores e logística: quando o tom não existe em Hong Kong
Entre os obstáculos mais comuns para quem faz Hicos está a cor. Lia disse que a correspondência exata entre o tom do hijab e o do personagem pode ser difícil, porque nem sempre há opções adequadas em Hong Kong. Em alguns casos, ela precisa encomendar hijabs da Indonésia para conseguir a tonalidade certa.
Esse detalhe revela um aspecto pouco visível para quem vê apenas a foto final: por trás do cosplay há planejamento, tempo e, muitas vezes, custos adicionais com materiais e remessas. Ao mesmo tempo, a necessidade de buscar o tom correto reforça o compromisso com a fidelidade do visual — mesmo quando o “cabelo” é criado com tecido.
De Feixiao a Maomao: o que torna certos cosplays mais difíceis
Entre os trabalhos anteriores, Lia destacou Feixiao, personagem do jogo Honkai: Star Rail, como seu cosplay favorito. Ela descreveu a produção como particularmente desafiadora, mas também recompensadora. Em cosplays desse tipo, o nível de dificuldade costuma estar ligado ao formato do penteado, à complexidade das cores e ao encaixe do tecido para manter o desenho do personagem sem perder estabilidade durante o evento.
Quando chegou a vez de Maomao, Lia disse que não esperava que o cosplay ganhasse tanta repercussão. A ideia, na verdade, nasceu do desejo de refletir a própria identidade no trabalho. Para ela, o hijab não é apenas um acessório: é parte essencial de quem ela é.
“O hijab é uma parte importante de quem eu sou. Eu queria que ele fizesse parte do design da personagem também”, declarou. Ao transformar o hijab em elemento do figurino, Lia desloca o foco: em vez de “esconder” o acessório religioso para imitar o personagem, ela o coloca no centro da criação.
Reação do público e busca por mais representação
Lia também falou sobre a experiência de participar do cenário local. Como integrante de uma comunidade étnica minoritária em Hong Kong, ela disse que inicialmente se preocupou com a reação do público. Com o tempo, porém, essas inseguranças diminuíram após ela se envolver mais com a cena de cosplay da cidade.
Ela afirmou que o ambiente tem se tornado mais diverso, mas ressaltou que ainda há espaço para ampliar a representação. A mensagem de Lia é que eventos culturais devem ser espaços onde pessoas diferentes possam se expressar com liberdade.
“Eu espero que todo mundo possa ter um espaço onde se sinta livre para se expressar”, disse.
Por que o cosplay viralizou: criatividade, conforto e mistura cultural
Depois que as imagens de Lia circularam, a postagem gerou reações positivas. Muitos usuários elogiaram a criatividade do design e a forma como o cosplay combina elementos culturais e religiosos com a estética do anime. Houve também comentários bem-humorados, como a observação de que, em um clima quente e úmido como o de Hong Kong, um cosplay baseado em hijab pode ser mais confortável do que perucas durante eventos longos.
Esse tipo de repercussão mostra como a internet costuma valorizar não só o resultado visual, mas também a história por trás da produção. No caso de Lia, o que chama atenção é a capacidade de transformar uma limitação — a ausência de peruca ou a necessidade de manter o hijab — em uma assinatura criativa do personagem.
Ao integrar o hijab ao penteado de Maomao, Lia Lithuk reforça uma tendência que vem ganhando força: a de cosplays que não tentam “apagar” identidades, mas sim incorporá-las ao universo pop. Em uma Comic Con que reúne fãs do mundo inteiro, a presença dela funciona como um lembrete de que a cultura de anime pode ser plural, inclusiva e, acima de tudo, feita por pessoas reais.




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Fonte: Sing Tao Headline (The Standard).




