Os cortes na divisão de games da Microsoft, que já haviam sido noticiados na semana passada, devem começar nesta segunda-feira, 6 de julho, poucos dias depois de a empresa fechar o ano fiscal. Desta vez, a discussão saiu do campo do “quem pode ser afetado” e ganhou nomes e estúdios específicos: uma lista vazada vem sendo corroborada por diferentes veículos.
Segundo informações atribuídas a fontes e repercutidas por Engadget, a lista — também alinhada com reportagens da Bloomberg e da The Verge — cita cinco estúdios que estariam diante de fechamento ou venda: Compulsion Games, Double Fine, Ninja Theory, Undead Labs e Arkane. No total, a estimativa é de cerca de 435 empregos em risco somando as equipes mencionadas. A Microsoft, até o momento, não confirmou oficialmente qualquer um desses detalhes, e há indicações de que alguns estúdios estariam em negociações ativas para tentar evitar o pior.
Marvel’s Blade: atraso, estouro de orçamento e possível cancelamento
Entre os nomes citados, o destaque mais sensível envolve Marvel’s Blade, jogo de caça ao vampiro desenvolvido pela Arkane. De acordo com Tom Warren, da The Verge, o projeto teria sido empurrado para o fim de 2027, estaria acima do orçamento e, agora, enfrentaria cancelamento direto.
A leitura por trás do noticiário é clara: quando um jogo passa por atrasos longos e custos crescentes, a chance de reavaliação total aumenta, especialmente em um cenário de cortes e “reset” financeiro.
Esse quadro também se conecta a informações publicadas anteriormente. Em 30 de junho, quando o assunto começou a ganhar forma, Arkane e Blade já apareciam como projetos em risco. Agora, a tendência apontada por diferentes fontes é de que o jogo pode não chegar ao lançamento, enquanto a própria estrutura do estúdio pode ser reorganizada.
Em paralelo, há ainda a possibilidade de a Microsoft optar por vender a Arkane Lyon em vez de encerrá-la. A avaliação aparece em um resumo da GamesRadar, que tenta organizar o que se sabe até aqui. Na prática, isso significaria que a equipe poderia continuar existindo sob outro guarda-chuva, ainda que com mudanças de direção e prioridades.
Double Fine tenta comprar a própria independência
Nem todos os estúdios estariam aceitando o destino sem reação. A Double Fine, conhecida por jogos como Psychonauts e Psychonauts 2, estaria discutindo uma alternativa para manter a operação.
Segundo a apuração, a liderança do estúdio, incluindo o fundador Tim Schafer, estaria explorando um buyout liderado pela gestão, com a ideia de tornar a Double Fine independente e, assim, evitar o fechamento.
Se esse caminho avançar, seria uma reviravolta significativa para uma empresa que existe há décadas. A Double Fine foi fundada por Schafer há 26 anos, e a possibilidade de “comprar a própria liberdade” mostra como, em momentos de crise, a estratégia pode sair do campo do pedido e entrar no campo do controle: manter a equipe e a marca, ainda que com um novo modelo de negócios.
Funcionários e sindicato pressionam antes dos cortes
Enquanto as negociações acontecem nos bastidores, trabalhadores também tentam influenciar o processo publicamente. A Kotaku relata que funcionários sindicalizados da Xbox, sob a CWA (Communication Workers of America), realizaram uma conferência de imprensa com a mensagem de que não aceitarão ser tratados como descartáveis.
Na ocasião, o sindicato apresentou demandas específicas que, na visão dos trabalhadores, deveriam ser aplicadas antes que as demissões se concretizem. Entre os pontos levantados estão a necessidade de aviso prévio em vez de notificações “no dia”, a criação de congelamento de contratações para que vagas abertas possam ser usadas para realocar pessoas afetadas internamente e a garantia de direitos de retorno por dois anos para trabalhadores demitidos.
O sindicato também afirma que a Microsoft teria ficado por meses sem responder adequadamente a propostas de proteção ao emprego. O contexto é relevante: a mobilização trabalhista no setor, que por muito tempo foi tratada como exceção, vem ganhando força.
Um exemplo citado na cobertura é a votação de 83% dos desenvolvedores de MTG Arena na Wizards of the Coast para formar o primeiro sindicato da companhia. A tendência, portanto, é de que a organização coletiva esteja se tornando parte do “novo normal” em empresas de tecnologia e games.
Qual é o tamanho do impacto?
Em termos de escala, a reportagem aponta que esta rodada pode envolver Xbox, áreas de vendas e consultoria, com possibilidade de chegar a cerca de 5.000 funções. Em uma leitura aproximada, isso equivaleria a algo como 2,5% da força de trabalho da Microsoft.
Um veterano da indústria chegou a afirmar que, considerando apenas a parte ligada aos games, seria o maior evento único de demissões da história do setor.
É importante reforçar: esse número ainda não foi confirmado oficialmente. Mesmo assim, o rumo parece consistente com o que já vinha sendo descrito em memos internos e análises econômicas. A cobertura menciona um “Reset” do CEO Asha Sharma, que teria detalhado a situação financeira da divisão.
Segundo a Bloomberg, a área teria registrado uma queda de US$ 500 milhões em receita ao longo dos últimos cinco anos.
Em valores aproximados, US$ 500 milhões equivalem a cerca de R$ 2,7 bilhões, considerando uma conversão simplificada. O ponto central, porém, não é apenas o número: é a conclusão de que o modelo não estaria sustentando a operação como antes, o que costuma levar empresas a cortar custos, reduzir equipes e reavaliar projetos.
O que está por trás: aquisições caras e pressão por resultados
A Microsoft investiu pesado na última década para ampliar seu portfólio de estúdios. Em 2021, a empresa desembolsou US$ 7,5 bilhões na compra da ZeniMax — algo em torno de R$ 40 bilhões, em conversão aproximada. Já em 2023, a aquisição da Activision Blizzard foi ainda maior: US$ 68,7 bilhões, equivalente a cerca de R$ 370 bilhões.
Os estúdios citados na lista vazada são, em muitos casos, parte do “rosto” dessa estratégia de expansão. Compulsion Games, por exemplo, teria lançado South of Midnight no ano passado. Ninja Theory construiu sua reputação com a série Hellblade. A Double Fine, com Psychonauts 2, entregou um dos exclusivos mais bem avaliados da geração. E a Undead Labs aparece no meio do desenvolvimento de State of Decay 3.
Quando a empresa decide cortar, o impacto costuma ser duplo: além de reduzir custos imediatos, a medida também afeta a continuidade de projetos e o planejamento de longo prazo. Em um setor em que jogos levam anos para sair do papel, qualquer mudança brusca pode significar cancelamentos, atrasos ou reestruturações profundas.
Um período especialmente duro para empregos no setor
Este momento se soma a um ciclo recente de cortes que já atingiu grandes nomes. A cobertura lembra que, nas últimas seis semanas, a indústria viu demissões em diferentes frentes: a EA reduziu pessoal após o fechamento de sua compra de US$ 55 bilhões — cerca de R$ 300 bilhões — com a transação concluída. A Sony, por sua vez, teria feito cortes na Bungie à medida que Destiny 2 se aproximava de uma fase de transição. Agora, a Microsoft entra no mesmo capítulo.
Para quem acompanha o mercado, o padrão é difícil de ignorar: a combinação de custos elevados, necessidade de retorno mais rápido e mudanças na forma como empresas planejam lançamentos tende a produzir um efeito dominó. E, como os estúdios são a base criativa do ecossistema, as demissões não afetam apenas números — afetam equipes, know-how e, em alguns casos, a própria existência de marcas.
O que observar nos próximos dias
Com a data de início dos cortes se aproximando, a expectativa agora se concentra em três pontos. O primeiro é se a Microsoft vai confirmar algum número e, principalmente, quais estúdios serão afetados de fato. O segundo é entender o que “venda” ou “spin-off” significam na prática: em alguns cenários, a equipe pode sobreviver, mas com mudanças de liderança e de prioridades.
O terceiro é acompanhar quais jogos podem ser interrompidos junto com as equipes responsáveis.
Para os fãs, a pergunta é inevitável: entre os estúdios citados, qual perda seria mais dolorosa? E, diante do que já aparece na imprensa, a tendência é que o debate sobre trabalho, transparência e proteção aos funcionários ganhe ainda mais espaço. O que acontece nesta segunda-feira pode definir não apenas o futuro de projetos específicos, mas também o ritmo com que a indústria lida com reestruturações.
Confira mais novidades em nosso Portal de Notícias!
Fonte: gamefragger



Comentários
Carregando...