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Casa Branca usa anime como propaganda na imigração; fãs no Japão reagem sem permissão

Casa Branca usa anime como propaganda na imigração; fãs no Japão reagem sem permissão
Casa Branca usa anime como propaganda na imigração; fãs no Japão reagem sem permissão
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A Casa Branca e agências do governo dos Estados Unidos têm usado imagens e referências de anime e mangá em publicações nas redes sociais para divulgar mensagens ligadas à política de imigração. O caso ganhou força após um post do Departamento de Segurança Interna (DHS, na sigla em inglês) que recorre a personagens e trilhas sonoras populares do Japão para comentar, com ironia, ações de prisão e deportação.

Em resposta, fãs japoneses iniciaram uma petição pedindo que o governo pare de usar obras culturais do país sem autorização. O argumento é que a prática distorce o sentido original dos conteúdos e ignora direitos autorais.

O que apareceu no vídeo: Pokémon na trilha e prisão como “piada”

O episódio mais recente envolve um vídeo em que agentes mascarados aparecem algemando e prendendo homens com rostos borrados. A cena é acompanhada pelo refrão da música tema de Pokémon, com a frase “Gotta catch ’em all” (“Pegue todos”).

Em um comentário ao post, o DHS respondeu a uma crítica usando uma adaptação das letras: “To arrest them is our real test. To deport them is our cause” — uma referência direta ao formato da canção, mas aplicada à política de imigração.

Para muitos fãs, a combinação entre linguagem de cultura pop e ações de segurança pública cria um efeito de normalização e até de “diversão” para práticas que, na visão deles, deveriam ser tratadas com seriedade. A repercussão cresceu especialmente no Japão, onde anime e mangá fazem parte do cotidiano e são vistos por parte do público como uma “linguagem compartilhada” entre gerações.

Petição no Change.org reúne quase 25 mil assinaturas

Uma das principais vozes na reação é Nana Suzuki, fã de longa data de anime e mangá. Segundo ela, a indignação começou quando a Casa Branca utilizou um trecho de Yu-Gi-Oh! em um vídeo que mostrava ataques militares.

Em março, Suzuki abriu uma petição no Change.org para contestar o uso de imagens em “contextos políticos ou militares” que, na avaliação dela, podem divergir das intenções de criadores e detentores de direitos.

Em entrevista à ABC, Suzuki afirmou que obras feitas para aproximar pessoas teriam sido usadas, sem permissão, como ferramentas de propaganda para o oposto do que os criadores pretendiam: militarismo e divisão política. A petição, que voltou a ganhar tração quando foi reaberta, já soma quase 25 mil assinaturas.

O movimento ganhou ainda mais atenção depois que Donald Trump publicou, no Truth Social, um vídeo aparentemente gerado por inteligência artificial em que aparece como um ninja inspirado em Naruto, personagem central da série Naruto. A reabertura da petição ocorreu nesse contexto, com a expectativa de canalizar a frustração de fãs do mundo todo em um número concreto que evidenciasse o tamanho do descontentamento.

“Assistindo fãs ao redor do mundo expressarem a mesma frustração que eu senti nas redes sociais, pensei: precisamos de algum lugar para direcionar isso — um número tangível que mostre o quanto a sociedade se importa”, disse Suzuki. Ela também afirmou que a resposta superou qualquer expectativa.

The White House is using anime as propaganda. Fans in Japan hate it

Por que o Japão vê anime como “ponte”, e não como ferramenta política

Embora anime e mangá sejam frequentemente tratados no exterior como um nicho cultural, no Japão eles estão tão integrados à vida diária que, para especialistas, medir o tamanho do público pode ser quase sem sentido. Kohki Watabe, professor assistente no Programa de Estudos Japoneses Internacionais e Avançados da Universidade de Tsukuba, descreve que a presença do gênero aparece em transportes, eventos e até na programação sonora de estações.

Na prática, isso significa que personagens e referências surgem em lugares inesperados: pessoas lendo mangá em trens, mascotes de Pokémon em partidas da liga profissional de beisebol e músicas-tema de séries como Astro Boy tocando em sistemas de som de estações. Para Watabe, anime não é apenas um hobby restrito a um grupo específico, mas uma espécie de “idioma comum” que atravessa gênero, classe e gerações.

Para Suzuki, a relação vai além do entretenimento. Ela descreve anime e mangá como uma “ponte” que conecta pessoas apesar de barreiras linguísticas. Quando era criança, diz ela, conseguiu fazer amigos por meio de desenhos de personagens. A mensagem universal presente em obras japonesas — esforço, amizade e vitória — teria funcionado como um “ponto emocional” que a ajudou a seguir em frente.

É justamente essa diferença de leitura que torna a apropriação política mais sensível. Helen McCarthy, pesquisadora que escreveu enciclopédias e histórias sobre anime e mangá, argumenta que Naruto, Yu-Gi-Oh! e Pokémon compartilham temas de apoio e celebração de comunidades, e não de exclusão ou punição sem contexto. Para ela, não há paralelo com a ideia de celebrar detenção sem julgamento ou encarceramento de crianças.

McCarthy também afirma que, ao contrário do que o nome do personagem sugere, Trump não se encaixa na lógica narrativa de Naruto além de uma semelhança superficial de personalidade — barulhenta, determinada e confiante. “Ele não busca vingança contra quem o rejeitou ou contra quem agora se opõe a ele”, disse a especialista, destacando que a comparação é mais estética do que substantiva.

O que o governo diz e como a controvérsia se espalha

O ABC buscou comentários da Casa Branca, mas não recebeu resposta. Ainda assim, um porta-voz do DHS afirmou que a agência pretende “alcançar as pessoas onde elas estão” com conteúdos que elas consigam relacionar e entender, citando exemplos como Halo, Pokémon, Lord of the Rings e outros formatos.

Na mesma declaração, o DHS disse que permanece “focado em aumentar a conscientização sobre o fluxo de crimes que imigrantes ilegais teriam causado ao nosso país” e que não pretende “diminuir” o ritmo. A justificativa, porém, não encerrou a discussão sobre direitos autorais e sobre o sentido político atribuído às obras.

Além do caso envolvendo Pokémon e Yu-Gi-Oh!, a controvérsia também inclui uma publicação anterior que usou uma imagem gerada por inteligência artificial em estilo semelhante ao de Studio Ghibli. Na ocasião, a agência teria mostrado um agente de imigração prendendo uma mulher chorando, retratada como Virginia Basora-Gonzalez, que o governo afirmou ser traficante de fentanil.

Para Watabe, filmes do Studio Ghibli, incluindo The Wind Rises, seriam “o exato oposto” da ideologia associada às mensagens de Trump, por tratarem de paz e examinarem a relação entre sonho e realidade.

Enquanto isso, do lado japonês, a reação institucional também aparece. Segundo relatos, o Ministério das Relações Exteriores do Japão teria apresentado uma reclamação à Embaixada dos EUA em Tóquio. Kimi Onoda, ministra japonesa de Estratégia de Propriedade Intelectual, voltou a tratar do tema ao dizer que organizações públicas devem obter permissão dos detentores de direitos.

Onoda afirmou que, mesmo quando não há uma violação clara de copyright, é crucial garantir que obras protegidas não sejam usadas de forma contrária às intenções dos detentores. Isso, segundo ela, pode prejudicar a imagem do trabalho e causar danos a quem detém os direitos. O governo japonês, segundo a ministra, teria reiterado a posição ao governo americano por canais diplomáticos.

Detentores de direitos de Naruto, Pokémon e Yu-Gi-Oh! não responderam às solicitações do ABC. Ainda assim, contas oficiais japonesas se manifestaram: a conta oficial de Yu-Gi-Oh! no X teria dito, em março, que não autorizou o uso do material pela Casa Branca. A Pokémon Company International também teria respondido que não concedeu permissão para o uso das imagens.

Anime virou linguagem global — e isso aumenta o atrito

Parte do debate se dá porque anime, apesar de ter raízes japonesas, se tornou um fenômeno global. Pesquisas de mercado citadas na reportagem apontam que o mercado mundial de anime foi estimado em US$ 38 bilhões em 2025, o equivalente a cerca de R$ 214 bilhões (aproximadamente, considerando uma conversão de referência). O setor cresce a uma taxa anual de cerca de 9%.

Plataformas de streaming também reforçam o alcance. A Crunchyroll, por exemplo, tem mais de 21 milhões de assinantes no mundo. Já a Netflix reporta que mais da metade de seus assinantes assistem a anime, com mais de um bilhão de visualizações anuais. Nos Estados Unidos, uma pesquisa citada indica que mais de 40% da geração Z assiste anime semanalmente, e que mais de 40% desses fãs são mulheres.

Para Watabe, anime deixou de ser “importação de nicho” e passou a funcionar como referência comum entre jovens. Ainda assim, ele ressalta que o fandom não é politicamente homogêneo. Ao lado de uma cultura mais ampla, teria surgido uma esfera reacionária e online, frequentemente associada a memes provocativos e, em alguns casos, a subculturas de direita.

Nesse cenário, a leitura do especialista é que a operação do governo estaria mirando justamente esse segmento.

Rodney Taveira, professor sênior do United States Studies Centre, diz que as contas oficiais do governo adotaram um estilo de postagem que antes ficava restrito a contas de memes de menor alcance. Para ele, vídeos como o do DHS com Pokémon funcionam como propaganda de maneira “clássica”: seriam desenhados para moldar a percepção sobre a fiscalização migratória como algo mais leve, divertido e aceitável.

Taveira também aponta que a estratégia pode servir para capturar atenção, controlar o debate e reforçar a sensação de impunidade com que agências federais agiriam. Além disso, haveria um componente de consolidação de identidade entre apoiadores fiéis.


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Fonte: ABC

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