Quentin Dupieux leva “Le Vertige” a Cannes: animação low-poly sobre homem preso em uma simulação
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O diretor francês Quentin Dupieux, também conhecido como DJ Mr. Oizo, levou Le Vertige a Cannes e apresentou mais uma variação do seu universo de absurdo que vira sátira — e, aos poucos, desmonta as certezas de quem assiste. No longa, um homem passa a acreditar que vive dentro de uma simulação. Só que, para o público, a “prova” já está lá desde o primeiro momento.
O mundo ao redor tem aparência de jogo antigo: corpos e ambientes em baixa resolução, com formas e texturas que lembram gráficos low-poly de outra era. É como se a realidade fosse renderizada com limitações deliberadas, deixando claro que aquilo não foi feito para parecer “perfeito” — e sim para provocar.
O filme, que marca a estreia de Dupieux no formato de animação, acompanha Alain Chabat no papel de Jacques. O personagem tenta convencer seus amigos mais próximos de que a vida cotidiana deles não passa de um ambiente virtual.
A revelação, porém, não causa o mesmo impacto em quem está ao lado dele. Enquanto Jacques insiste na ideia de que tudo é “programado”, o grupo reage com uma indiferença quase desconcertante. A sensação é de que, para os outros, a estranheza já faz parte do cotidiano — e, portanto, não vira crise.
Essa assimetria entre a paranoia do protagonista e a tranquilidade dos demais é um dos motores do humor do longa. E, para quem assiste, não é preciso “acreditar” na teoria da simulação: o filme entrega a pista visual. A estética do mundo funciona como argumento, sugerindo que as regras do universo não são “escondidas”, mas exibidas.
Le Vertige: a estética low-poly como “prova” da simulação
Dupieux constrói Le Vertige como uma espécie de comentário sobre realismo e sobre o que chamamos de “mundo”. Em vez de tentar esconder o artifício, o filme faz questão de exibi-lo. A animação, feita com Blender, transforma uma escolha estética em parte do raciocínio do enredo: se a realidade pode ser “renderizada” de diferentes maneiras, então a crença no que é real também pode ser questionada.
Ao longo do filme, a sensação é reforçada pela forma como o universo parece operar com limitações típicas de jogos antigos. Os movimentos e a lógica do ambiente evocam controles mais “travados”, como se tudo funcionasse dentro de uma interface própria. Tudo isso vira um convite para o espectador observar — e não apenas acompanhar.
Além disso, o longa conversa com um clima cultural em que imagens geradas por IA e efeitos digitais ocuparam espaço crescente na produção audiovisual. A obra não se limita a zombar da tecnologia. O alvo principal é a obsessão por aparência: ao colocar um personagem convencido de que está preso em uma simulação em um cenário que claramente parece um jogo, o filme sugere que a linha entre “parecer real” e “ser real” é mais frágil do que muita gente imagina.
Há ainda um elemento meta-ficcional. A história se alimenta da ideia de que narrativas podem ser construídas para manipular percepção. Jacques tenta convencer os outros com uma explicação que, para ele, deveria ser óbvia. Só que o filme inverte o jogo ao mostrar que, para o público, a “verdade” está na forma como o mundo é desenhado.
Alain Chabat: o humor do “quase nada” e o descompasso do protagonista
O desempenho de Alain Chabat sustenta o tom do filme. Ele interpreta Jacques com intensidade crescente, como alguém que está convencido de uma revelação — mas que encontra resistência no ambiente ao redor. O resultado é uma comédia de descompasso.
Enquanto o protagonista tenta transformar sua descoberta em debate, o cotidiano dos outros personagens segue sem grandes abalos. A vida ao redor parece continuar normalmente, como se a realidade fosse, no fundo, apenas mais um cenário. Essa indiferença desconcerta porque reforça a sensação de que o problema não é a teoria de Jacques, e sim o quanto o mundo ao redor não acompanha o ritmo da paranoia.
Essa abordagem dialoga com a estrutura de outras obras de Dupieux: o gênero surge como ponto de partida, mas rapidamente é abandonado para abrir espaço para uma farça maior. Em Le Vertige, a “grande ideia” da simulação poderia virar um drama filosófico. O filme, no entanto, prefere o absurdo. A revelação não leva a grandes consequências, e a insistência do protagonista vira combustível para o humor.
O longa também explora a sensação de que o mundo tem regras próprias — e, ao mesmo tempo, parece indiferente a elas. A estética low-poly funciona como assinatura visual do destino do personagem: ele está preso em um ambiente que não tenta ser convincente. E, justamente por isso, a obra consegue ser mais provocativa do que parece à primeira vista.
Quentin Dupieux em Cannes: dois filmes, dois formatos
Le Vertige foi um dos dois filmes apresentados por Dupieux neste ano em Cannes. O outro é Full Phil, uma comédia de ação ao vivo (live action) estrelada por Kirsten Stewart e Woody Harrelson. O elenco também reúne Tim Heidecker e Eric Wareheim, dupla conhecida por trabalhos que misturam humor absurdo e narrativa fora do eixo.
Em Full Phil, a história acompanha um milionário que tenta se reconectar com a filha por meio de uma viagem a Paris. A proposta muda de registro: sai do universo animado low-poly e entra em uma comédia com atores reais. Ainda assim, Dupieux mantém o traço de tratar situações comuns como matéria-prima para o estranhamento.
Essa presença dupla em Cannes reforça a produtividade do diretor e a capacidade de transitar entre linguagens sem perder o estilo. Dupieux tem uma filmografia marcada por reviravoltas e por um “desvio” constante: ele começa com uma premissa que parece pertencer a um gênero específico e, em seguida, desmonta as expectativas para seguir em direção a algo mais excêntrico.
De “Rubber” ao Blender: a lógica do absurdo em Dupieux
Antes de Le Vertige, Dupieux já havia chamado atenção com Rubber (2010). O filme foi anunciado como um terror sobre um pneu assassino, mas acabou virando uma peça de humor que brinca com as expectativas do público. A obra transformou o “horror” em piada e, ao mesmo tempo, fez comentários sobre o próprio ato de assistir — como se zombasse da ideia de que o espectador está ali para receber respostas.
Ao longo dos anos, o diretor manteve esse padrão: sugere um caminho e, logo depois, troca o volante. Em Le Vertige, a troca acontece no nível visual e narrativo. A animação em Blender não é apenas um método; é uma forma de materializar a tese do filme. Se o mundo é feito de polígonos e limitações, então a crença de Jacques não é só paranoia — é uma leitura possível do ambiente em que ele vive.
Com isso, Le Vertige se torna uma experiência que pode ser lida em camadas. Há o humor imediato, há a provocação sobre realismo e há, por trás, uma pergunta incômoda: o que exatamente nos faz aceitar uma imagem como “mundo”? E, se a realidade pode ser renderizada de tantas maneiras, por que insistimos em tratá-la como única e incontestável?
Ao levar essa discussão para Cannes com uma estética assumidamente artificial, Dupieux entrega um filme que diverte e, ao mesmo tempo, desafia o olhar. Jacques pode estar convencido de que vive em uma simulação, mas o filme deixa claro que a simulação não é o problema — o problema é o quanto a gente se acostuma com as aparências e chama isso de realidade.
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Fonte: Kotaku




