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Quatro anos após a “purga” da The CW, o impacto ainda ecoa na TV de gênero. A mudança brusca na emissora, iniciada em 2022, não só cancelou séries queridas — como também desmontou um espaço que, por anos, misturou fantasia, romance e aventura com um apelo acessível para públicos mais amplos.
Quando a The CW surgiu, no fim dos anos 2000, ela trouxe uma proposta incomum para a TV aberta dos Estados Unidos: apostar em séries voltadas a um público mais jovem e, ao mesmo tempo, abraçar gêneros que nem sempre encontravam espaço nas grades tradicionais. Foi assim que a emissora se tornou referência para quem acompanhava romances, aventuras, ficção científica, super-heróis e histórias sobrenaturais com um tom acessível — e, muitas vezes, ousado. Só que, em 2022, esse modelo foi interrompido por uma mudança brusca: uma onda de cancelamentos que, quatro anos depois, ainda deixa marcas na televisão de gênero.
O ponto de virada ocorreu após a compra da rede pela Nexstar. Em 12 de maio de 2022, a The CW anunciou o cancelamento em massa de sete séries em um único dia, numa decisão que ficou conhecida pelos fãs como uma espécie de “Red Wedding” — referência à famosa virada trágica de Game of Thrones. Foram atingidas 4400, Naomi, Dynasty, Charmed, In the Dark, Roswell, New Mexico e Legacies. Pouco antes, outras duas produções já tinham sido encerradas: Batwoman e DC’s Legends of Tomorrow. Nos meses seguintes, a lista de cortes continuou, com cancelamentos como Nancy Drew, Stargirl, The Flash e Riverdale.
Com o tempo, a emissora foi reduzindo ainda mais o número de séries roteirizadas. Hoje, restam praticamente apenas produções que já estavam em andamento antes da Nexstar. Entre elas, All American é a que segue na programação e, segundo o cenário atual, entra em sua última temporada neste julho. Quando a série terminar, a The CW deve encerrar um ciclo que, para muitos espectadores, representava uma era específica da TV de gênero — e, para outros, um espaço que simplesmente deixou de existir.
A “purga” da The CW e a identidade da TV de gênero
Desde a sua criação, em 2006, a The CW se posicionou como sucessora de UPN e The WB. Mas mais do que uma mudança de nomes, a emissora oferecia algo raro: uma curadoria de programação desenhada para dialogar com adolescentes e jovens adultos, sem abrir mão de histórias com personalidade. Em meados dos anos 2000, ela abrigou títulos que viraram referência cultural, como 7th Heaven, Gilmore Girls, One Tree Hill, Smallville e Supernatural. Depois, já na década seguinte, a rede ajudou a consolidar o que viria a ser uma marca registrada: séries de gênero com alcance amplo.
Esse “alcance amplo” era parte do diferencial. A The CW não tratava super-heróis, vampiros e bruxas como nichos fechados. Ela transformava esses universos em histórias com ritmo de drama, romance e aventura, frequentemente com um tom que permitia que famílias inteiras assistissem juntas. O resultado foi uma programação que, mesmo quando não era a campeã de audiência, criava comunidades fiéis e, muitas vezes, gerava impacto cultural.
Um exemplo frequentemente citado por fãs é Crazy Ex-Girlfriend. A série nasceu com desenvolvimento ligado ao Showtime, mas encontrou na The CW um ambiente que permitiu que o projeto prosperasse. O que chamava atenção era a mistura de gêneros: uma comédia dramática romântica que também era musical. A trama acompanha Rebecca Bunch (Rachel Bloom), uma advogada que abandona uma vida bem-sucedida em Nova York para perseguir o ex-namorado de um acampamento de verão em West Covina, Califórnia. Em cada episódio, números musicais originais ajudavam a contar uma história com camadas emocionais, incluindo discussões sobre saúde mental — algo que, em outras redes, poderia ser visto como “difícil demais” para o formato.
Na ficção científica, The 100 também simboliza o tipo de aposta que a emissora fazia. A série parte de um cenário pós-apocalíptico, com adolescentes enviados de volta à Terra para verificar se o planeta é habitável anos após um cataclismo. No início, a proposta pode soar como algo “quase ruim de tão exagerado”, mas o programa evolui para uma narrativa de sobrevivência mais sombria e complexa, em que heróis e vilões frequentemente ocupam zonas cinzentas. Em vez de simplificar conflitos, a série investia em dilemas morais e em consequências.
Já o universo de super-heróis da emissora — o chamado Arrowverse — ajudou a provar que histórias de quadrinhos podiam funcionar na TV com ambição de evento. Arrow, The Flash, Supergirl e Legends of Tomorrow não apenas construíram um mundo compartilhado, como também criaram cruzamentos sazonais que reuniam personagens em escala maior do que o comum para séries de TV. Em Crisis on Infinite Earths, a produção chegou a um nível de espetáculo frequentemente comparado a eventos cinematográficos como Avengers: Infinity War e Avengers: Endgame, com uma sensação de “grande final” que repercutiu entre fãs de DC.
Havia, claro, limitações típicas de produção televisiva. E, na cultura da internet, até surgiram piadas sobre elementos como figurinos e perucas em algumas séries. Ainda assim, o que sustentava a relevância da The CW era o conjunto: a disposição de experimentar, de misturar estilos e de oferecer histórias que, em muitos casos, não existiam em outros lugares com a mesma combinação de acessibilidade e ousadia.
O que mudou após a Nexstar: menos risco, mais “encaixe”
Depois da chegada da Nexstar, a direção criativa da The CW passou a seguir outro caminho. A partir de 2023, a emissora começou a priorizar menos as séries roteirizadas originais que poderiam virar fenômenos e mais conteúdos lineares e esportes. Em vez de apostar com força em produções próprias, a rede passou a adquirir programas de fora dos Estados Unidos, como The Chosen, além de co-produções como Sullivan’s Crossing e Wild Cards. Também houve uma ênfase maior em conteúdo sem roteiro e em esportes.
O problema, para parte do público, não é apenas a mudança de programação. É a ausência de continuidade para um tipo específico de narrativa que a The CW ajudava a manter viva. As séries que marcaram a emissora — e que, em muitos casos, ganharam prêmios, elogios e relevância cultural — não encontraram um “lar” equivalente em outras redes. Em canais abertos e até em parte do cabo premium, é difícil encontrar algo com a mesma mistura de gêneros e o mesmo tom voltado a diferentes faixas etárias.
É possível achar ficção científica, terror e drama em outras plataformas e emissoras. Mas o que faltou foi a sensação de variedade com unidade. A The CW funcionava como um espaço de encontro para quem queria histórias com fantasia e emoção, sem precisar entrar em um universo tão fechado ou tão explicitamente adulto. Enquanto outras produções podem ser mais sombrias ou menos conectadas entre si, a emissora oferecia franquias que conversavam com o público de forma ampla e, muitas vezes, interligada.
Essa diferença fica evidente quando se compara o “clima” de algumas séries. No universo da The CW, era comum ver aventuras e melodrama em histórias de vampiros, bruxas e lobisomens com um grau de acessibilidade que permitia que a experiência fosse compartilhada. Já produções de outras redes podem ser mais maduras e menos “família”, como acontece com séries do tipo The Penguin (do universo de The Batman) ou Peacemaker. Mesmo quando o gênero é parecido, a forma de contar muda — e, com ela, o público que se sente representado.
Um “vazio” na programação de gênero e a sensação de perda
Quatro anos após um dos dias mais duros da TV americana para fãs de séries, a discussão sobre o que foi perdido ainda está em aberto. A The CW, para muitos espectadores, ocupava um espaço que não era nem a TV aberta “tradicional” nem a televisão de prestígio. Era um terceiro lugar, onde diferentes públicos podiam se encontrar em torno de histórias com fantasia, romance e aventura.
Quando a grade foi esvaziada, esse espaço deixou de existir. E, com o tempo, a percepção do impacto tende a aumentar. Afinal, não se trata apenas de títulos cancelados: trata-se de um ecossistema que formava espectadores, criava comunidades e alimentava franquias. Sem continuidade, o gênero perde um canal de entrada — e isso pode levar anos para ser recomposto.
O resultado é um buraco na programação que ainda não foi preenchido com a mesma combinação de ousadia e apelo popular. E, enquanto All American se aproxima do fim, a The CW caminha para encerrar uma fase que, para muitos, representava mais do que entretenimento: representava uma forma de ver TV de gênero com espaço para emoção, fantasia e identificação.
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Fonte: ComicBook.com.




