Por que a Bethesda não deixa a Obsidian fazer um novo Fallout: New Vegas?

Lançada no dia 10 de abril deste ano, a série de Falout produzida pela Amazon Prime Video estimulou muitas pessoas a conhecerem ou redescobrirem os jogos da saga. Embora não tenha sido criada pela Bethesda, a franquia pós-apocalíptica tem sido uma parte importante de seu portfólio desde que foi adquirida em 2007.

No entanto, um dos jogos que voltou a ser o centro de conversas recentes não foi produzido pela desenvolvedora, mas sim por outro nome grande no mundo dos RPGs: a Obsidian Entertainment. Formada por diversos veteranos da indústria, a empresa foi a responsável por trazer Fallout: New Vegas às lojas em 2010.

Construído sobre a engine de Falout 3, o game trouxe um maior foco na narrativa e personagens que até hoje estão na memória dos fãs. Apesar de alguns problemas técnicos, a aventura agradou e gerou diversos pedidos de sequências.

No entanto, uma continuação de Fallout New Vegas nunca chegou, gerando rumores de que a Bethesda não gosta da Obsidian. Mas será que isso é verdade? Confira a seguir mais detalhes sobre a relação entre os estúdios.

Fallout: New Vegas destoa dos jogos da Bethesda

O motivo mais provável para que uma sequência de Fallout: New Vegas nunca ter sido feita é o fato de que ele destoa um pouco dos trabalhos da Bethesda. Enquanto os jogos mais recentes da publicadora ganharam um foco cada vez maior no combate e ação, a Obsidian é conhecida por ter a narrativa como sua grande prioridade.

E muito disso pode ser explicado por suas origens na Black Isle Studios, um lendário estúdio focado em RPGs que teve muita influência sobre a criação da franquia. Pertencente à Interplay, a desenvolvedora foi a responsável por criar os dois primeiros jogos da série e chegou a trabalhar em um terceiro capítulo, antes de ser fechada durante uma crise financeira.

Fallout: New Vegas tem diferenças notáveis em relação aos games da Bethesda

Quando isso aconteceu, os colegas Feargus Urquhart, Chris Avellone, Chris Parker, Darren Monahan e Chris Jones decidiram que queriam continuar trabalhando no tipo de jogo que se tornou sua especialidade. Fundada em 2003, a Obsidian Entertainment trabalhou durante anos como um “estúdio sob contrato” que sempre sobreviveu com orçamentos apertados.

Fallout: New Vegas foi o quarto projeto da empresa, que teve somente 18 meses para construí-lo a partir da engine de Fallout 3. Com um prazo tão apertado, o game naturalmente chegou com diversos problemas técnicos, mas compensou isso com uma história bem-desenvolvida, personagens e ambientações marcantes.

Enquanto as conexões com o jogo anterior são óbvias, é possível sentir que a Obsidian deu sua própria cara à sequência, algo que pode não ter agradado sua parceira. Embora a narrativa seja importante nos jogos da Bethesda, a empresa costuma dar um foco maior a oferecer jogos imensos nos quais uma escolha não bloqueia as demais — e New Vegas destoa bastante nesse sentido.

Obsidian quis repetir a parceira

A oportunidade de trabalhar com a série foi uma oferta da Bethesda, cujas equipes estavam ocupadas demais com The Elder Scrolls V: Skyrim para que ela pudesse se dedicar a uma sequência. A publicadora chegou a fazer um acordo com o estúdio de que, se o novo game atingisse a nota 85 no Metacritic, seus desenvolvedores ganhariam um bônus.

Com a nota 84 de Fallout: New Vegas, a empresa não conquistou o que estava acordado e foi forçada a demitir algumas de suas equipes. No entanto, ao contrário do que se poderia imaginar, isso não estragou a relação entre as companhias, e a Obsidian chegou a fazer várias propostas para repetir a parceria — todas negadas.

No X/Twitter, Chris Avellone afirmou que nunca entendeu realmente o que aconteceu ou os motivos pelos quais a Bethesda rejeitou os projetos que lhe eram propostos. Ele explicou que o estúdio chegou a sugerir trabalhar em spin-offs de The Elder Scrolls, garantindo que a franquia continuaria em alta e recebendo novidades após a estreia de Skyrim.

Embora a parceria nunca tenha se repetido, a Obsidian continuou trabalhando para outros estúdios em jogos como Dungeon Siege III e South Park: The Stick of Truth, sempre passando por muitas dificuldades financeiras. Em 2015, a empresa conseguiu lançar Pillars of Eternity, seu primeiro projeto original que resgatava muito do tipo de experiência na qual a Black Isle se especializou.

No entanto, a estabilidade financeira só viria em 2018, quando a Microsoft anunciou que a desenvolvedora passou a fazer parte do Xbox Game Studios. Desde então, a companhia já lançou o game de sobrevivência Grounded e o adventure Pentiment, e atualmente se prepara para trazer Avowed e The Outer Worlds 2 às lojas.

Bethesda quer manter controle criativo

Embora Fallout: New Vegas tenha sido elogiado e até hoje seja apontado como um dos melhores capítulos da série, isso não parece importar muito para a Bethesda. Muito disso pode ser consequência de um desejo da companhia de manter controle total de seus projetos, os direcionando a estúdios sob o qual tem total controle.

New Vegas foi um dos últimos projetos que a Bethesda deixou na mão de estúdios externos

Enquanto o braço de publicação da companhia — a Bethesda Softworks — ainda trabalha com companhias como id Software, Tango Gameworks e Machine Games, as propriedades intelectuais da casa costumam ficar nas mãos da Bethesda Game Studio. Esse processo só se intensificou com o passar dos anos, com o estabelecimento de um único nome entre diferentes divisões.

Em 2018, por exemplo, ela transformou o BattleCry Studios na Bethesda Games Studio Austin, enquanto a Escalation Games virou a Bethesda Game Studios Dallas. Essa consolidação veio ao custo de um ritmo de lançamento mais lento, que só se intensificou graças ao momento da indústria no qual um projeto Triplo A pode levar pelo menos 5 anos para ficar pronto.

Parceria pode ser revivida

Com a aquisição da Bethesda pela Microsoft em 2021, muitos fãs de New Vegas passaram a acreditar que a parceria entre os estúdios poderia se repetir. Embora isso ainda possa acontecer no futuro, há fortes indícios de que essa não é uma prioridade para eles, tampouco para a dona do Xbox.

Enquanto a Bethesda continua trabalhando de sua forma tradicional, a Obsidian foi bastante beneficiada com a aquisição e ganhou a autonomia e os fundos com que sonhava desde sua fundação. Não à toa, desde 2018 o estúdio se aventurou em novos gêneros e, atualmente, trabalha em suas “próprias versões” de The Elder Scrolls e Fallout, com Avowed e The Outer Worlds 2, respectivamente.

Assim, caberia à Microsoft “forçar” uma reunião, o que não parece ser seu estilo no momento. Embora tenha investido pesado em vários estúdios, a companhia é conhecida por influenciar pouco nas atividades de cada um deles — e isso não deve mudar enquanto Phil Spencer continuar no comando de suas iniciativas relacionadas a games.

No entanto, o sucesso da série Fallout deve movimentar as coisas na Bethesda. A produção alcançou 65 milhões de visualizações no Prime Video em apenas duas semanas, o que elevou a popularidade de Fallout 4 e Fallout 76.

Em entrevista ao Kinda Funny Games, o principal responsável pela franquia, Todd Howard, revelou que a Bethesda já está buscado formas de aumentar o número de lançamentos de Fallout e outras produções, como The Elder Scrolls, para que os fãs não fiquem anos esperando por décadas.

Essa iniciativa eventualmente pode acabar levando a uma sequência de Fallout New Vegas feita pela Obsidian, bem como outros projetos envolvendo a franquia. No entanto, nada além da vontade de lançar mais jogos foi confirmado pela Bethesda até agora.


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