Nintendo resolveu o “problema das princesas”? A evolução de Peach, Daisy e Rosalina em Mario
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Por décadas, o Reino do Cogumelo teve um padrão narrativo que se repetia: não havia rainhas, apenas princesas. Em boa parte dos jogos da franquia Mario, elas funcionavam como o destino da aventura — ou como o motivo do resgate — enquanto o herói seguia em busca de salvar alguém capturada por vilões. Mas esse modelo começou a mudar, e a pergunta que fica é direta: a Nintendo realmente resolveu o “problema das princesas”?
Em 2023, a resposta parece ter ganhado força com a estreia de The Super Mario Bros. Movie, quando a Princesa Peach deixou de ser apenas a figura em perigo e passou a aparecer como uma estrategista de combate, com prioridades claras e uma leitura mais humana do que significa liderar. Agora, com a chegada de The Super Mario Galaxy Movie, a Nintendo e o estúdio Illumination voltam ao tema — mas por outro caminho: revisitando uma princesa que, desde o lançamento de Super Mario Galaxy (2007), já destoava do molde tradicional. Rosalina, que não foi sequestrada, ganha ainda mais espaço e contexto, reacendendo o debate sobre como personagens femininas são construídas em jogos e adaptações.
De donzela a líder: Peach muda o papel no enredo
Antes de 2023, Peach era menos uma líder e mais uma recorrência do roteiro: frequentemente aparecia como prisioneira, em situações que iam de jaulas suspensas sobre lava fervente a cenários em que o resgate era o objetivo imediato. Mesmo quando a personagem recebia mais destaque em spin-offs, como em jogos da série Paper Mario, a narrativa ainda orbitava a ideia de que ela estava em desvantagem — e que precisava agir contra sequestradores para sobreviver.
O ponto de virada veio quando a Nintendo abandonou, ao menos no cinema, o arquétipo da “dama em perigo”. No filme, Peach surge como uma estrategista que coloca os cidadãos acima do próprio risco. A mudança não é só de figurino ou de postura; é psicológica. A personagem passa a ter uma camada de decisão e responsabilidade, algo que o público vinha esperando há mais de quatro décadas, desde que a franquia consolidou o ciclo “Mario salva Peach”.
Essa evolução também conversa com o momento em que a Nintendo disputa atenção do consumidor com gigantes do entretenimento. Nos últimos dez anos, a empresa passou a competir com a Disney em áreas como merchandising, filmes e parques temáticos. Só que, enquanto o mercado pedia personagens mais complexas, a Nintendo precisava atualizar o que oferecia. Nesse contexto, as mulheres do universo Mario precisariam de qualidades mais “pé no chão”, semelhantes ao que se vê em personagens como Moana e Merida — protagonistas com motivações próprias, não apenas com função de resgate.
Rosalina: a princesa que não era sequestrada
Rosalina entra como um contraponto imediato. Até o lançamento do filme de Super Mario Galaxy, ela era a única mulher de destaque na franquia que não havia sido sequestrada. E, mais do que isso, ela já chegava ao jogo com uma proposta narrativa diferente: em vez de ser apenas um “motivo” para a jornada, Rosalina se conecta diretamente ao universo do enredo.
Nos primeiros minutos de Super Mario Galaxy, ela aparece em um clarão de luz celestial e conduz Mario a uma nave para encontrar os Lumas — criaturas que flutuam e, com o tempo, se transformam em estrelas e planetas. O jogador descobre depois que Rosalina se tornou mãe adotiva dos Lumas após perder a própria mãe quando era criança. A personagem também desenvolve poderes quase divinos, o que reforça sua posição singular dentro do Reino do Cogumelo.
Mesmo em um mundo de cogumelos falantes e tartarugas malignas, Rosalina foi tratada como uma exceção. A própria forma como a Nintendo construiu a personagem indica que houve um experimento: os desenvolvedores estavam acostumados a oferecer ao público apenas o mínimo de narrativa para justificar as aventuras de Mario. Rosalina, no entanto, exigiu mais história e mais explicação — e isso a colocou em outro patamar.
Para Sarah Stang, pesquisadora feminista de mídia na Brock University, a maternidade de Rosalina é um elemento importante. “Em videogames, mães tendem a ser completamente apagadas ou a morrer na história”, disse ela. “Rosalina tem uma história muito maternal, mesmo que os jogos de Mario sejam tematicamente sobre irmãos.”
As primeiras “damas” do universo Mario e o molde do resgate
Para entender por que a pergunta sobre “o problema das princesas” faz sentido, vale voltar ao início. A franquia começou em 1981 com o personagem conhecido como Jumpman, que saltava para desviar de obstáculos. A namorada dele, por sua vez, era apenas Lady — e foi sequestrada pelo macaco do jogo de arcade Donkey Kong.
Esse foi o começo do trope da donzela em perigo nos videogames. Em 1982, a personagem passou a ser chamada de Pauline em novas versões do arcade e, em 1986, quando o jogo chegou ao Nintendo Entertainment System, o manual já deixava claro o objetivo: “Ajude Mario a escalar o canteiro de obras para resgatar sua namorada, Pauline”. O texto ainda sugeria pontuação ao coletar itens deixados por Pauline, como guarda-chuva e bolsa.
Com o tempo, Pauline ganhou mais identidade. Em 2017, ela deixou para trás a imagem de refém e reapareceu como a prefeita cantora de New Donk City em Super Mario Odyssey, em um conceito que lembrava Manhattan, mas com a assinatura do universo Mario. A reformulação foi marcante: em vez de vestidos volumosos associados às princesas, Pauline adotou um conjunto de calça e paletó vermelho para o trabalho na cidade e um vestido mais justo quando cantava em celebrações. Mais tarde, uma versão adolescente da personagem também apareceu em Donkey Kong Bananza, como parceira do grande gorila, não como refém.
Peach e Daisy: a troca de nomes e a manutenção do papel
Nos jogos de Super Mario Bros das décadas de 1980 e 1990, o sequestro de mulheres continuou sendo um motor para a jornada do jogador. Pauline, porém, foi ficando para trás e deu lugar à Princesa Toadstool — conhecida como Peach —, a única capaz de desfazer uma maldição no Reino do Cogumelo.
Havia também um elemento de “isca e troca”. As fases do castelo prometiam a possibilidade de resgate, mas o jogador encontrava um mensageiro em pânico dizendo que “nossa princesa está em outro castelo”. Peach, ainda assim, teve oportunidades de brilhar em jogos de festa e competições, como Super Mario Kart, em que ela era a única personagem feminina jogável.
O primeiro grande passo solo veio em 2005, em Super Princess Peach, quando a personagem virou o centro da ação e precisou resgatar Mario usando habilidades ligadas às próprias mudanças de humor. Depois disso, o próximo salto relevante demorou: em 2024, ela voltou com Princess Peach: Showtime!, salvando criaturas de uma feiticeira malvada.
Já Daisy apareceu como a segunda princesa quatro anos depois de Peach, em 1985. Em Super Mario Land (Game Boy), ela governava um reino distante, mas na prática era uma espécie de substituta de Peach: poucos traços visuais e uma presença limitada. Quando surgiu em um jogo de golfe no ano seguinte, Daisy foi rebaixada a caddy, pendurada no braço de Luigi e quase indistinguível de Peach na tela de título.
Com o tempo, Daisy ganhou espaço como personagem de apoio, aparecendo em jogos como Mario Party e Mario Tennis. Seu design se consolidou como uma princesa de cabelo castanho e vestido laranja, com uma personalidade mais “tomboy” e uma veia competitiva em jogos como Mario Strikers Charged. Ainda assim, por muito tempo, ela permaneceu como parceira e não como protagonista.
Essa lógica mudou em 2023, quando Daisy se tornou jogável no jogo principal Super Mario Wonder para o Nintendo Switch. O diretor de jogo Shiro Mouri explicou na época que a inclusão ocorreu para resolver uma disputa entre as filhas dele: elas brigavam para decidir quem ficaria com a vez de jogar como Peach.
O “novo” Rosalina e o que fãs querem além do filme
Mesmo com a evolução, a discussão sobre princesas não se encerra. Rosalina, por exemplo, teve um caminho de construção que começou mais tradicional. Conceitos iniciais a mostravam com penteado volumoso e vestido que lembrava o de Cinderela, da Disney. Com revisões, o cabelo loiro platinado passou a ser uma marca definidora, carregada de personalidade.
Notas de design citadas no material do jogo indicam que as longas franjas representariam força externa e tristeza e solidão internas. A história trágica que define Rosalina foi escrita em uma noite pelo diretor de Super Mario Galaxy, Yoshiaki Koizumi, que defendia mais narrativa nos jogos — algo que Shigeru Miyamoto, criador da série, permitiu apesar de sua visão de que Mario não exigia muito enredo.
Koizumi afirmou em entrevista à Wired, em 2007, que por muito tempo parecia “proibido” contar histórias em um jogo de Mario. Mas, naquele caso, ele acreditava que Lumas e Rosalina precisavam de uma história para explicar o que faziam no espaço e oferecer ao público uma compreensão mais profunda da presença delas.
Mesmo assim, muitos jogadores queriam mais. Antes do anúncio do título do filme, a Nintendo comunicou que lançaria uma versão aprimorada de Super Mario Galaxy com dois capítulos extras do livro de histórias de Rosalina. Além disso, a empresa venderia cópias físicas desse livro por quase US$ 25, algo em torno de R$ 130, considerando uma conversão aproximada. A iniciativa reforça que a personagem não é apenas “tema de filme”; ela é um universo em expansão.
Mercedes Rose, dubladora original de Rosalina, também relatou aumento nas mensagens de fãs que descrevem a personagem como materna e poderosa. Ela disse ter recebido orientação da equipe da Nintendo de que Rosalina seria algo como a mãe do universo. “A voz dela é bem calmante e passa uma sensação de outro mundo, mas ainda assim é bem fundamentada na realidade”, comentou. Segundo ela, o trabalho de gravação levou apenas um dia.
Ao fim, a pergunta inicial ganha um contorno mais interessante. A Nintendo não eliminou princesas — até porque elas fazem parte do imaginário do próprio Mario. O que mudou foi o papel que essas personagens ocupam: de reféns do roteiro para figuras com agência, história e função emocional mais complexa. Peach passou a liderar. Daisy deixou de ser apenas coadjuvante. E Rosalina, que já era exceção, agora recebe ainda mais camadas para sustentar o que o público vem pedindo há anos: personagens femininas que não existam apenas para serem resgatadas.
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Fonte: thestar




