Nintendo deveria tratar Zelda como Capcom trata Resident Evil: mais remakes, melhor ritmo e mais acessibilidade
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A franquia The Legend of Zelda está prestes a completar 40 anos e, mesmo após décadas, continua entre as séries mais elogiadas e rentáveis da indústria. São 20 jogos principais e ainda um grande número de portas e spin-offs que ajudaram a manter o nome de Link e Zelda sempre em evidência. Mas, apesar do legado consolidado, há um ponto em que a Nintendo poderia ir além: um plano de remakes e relançamentos com cadência semelhante à que a Capcom adotou em Resident Evil.
A ideia não é simplesmente “refazer jogos antigos”, e sim organizar o futuro da série de um jeito que preserve o que funciona, atualize o que envelheceu e, ao mesmo tempo, mantenha o público engajado. A Capcom conseguiu fazer isso ao longo dos últimos anos com uma estratégia que alterna lançamentos inéditos e remakes, criando uma espécie de “linha do tempo” que mantém a franquia relevante sem perder a identidade.
O que a Capcom fez com Resident Evil (e por que isso funcionou)
Desde 2017, a Capcom vem alternando, em ciclos, entre novos capítulos de Resident Evil e remakes de jogos clássicos. Esse movimento se apoia em um fator importante: a empresa passou a usar a RE Engine para dar unidade visual e técnica a diferentes experiências dentro da mesma franquia. Na prática, o estúdio conseguiu transformar títulos antigos em produtos com padrão moderno, sem que a essência do jogo se perdesse no processo.
Esse ritmo incluiu Resident Evil 7: Biohazard, os remakes de Resident Evil 2 e Resident Evil 3, Resident Evil Village e o remake de Resident Evil 4. Mais recentemente, a Capcom também anunciou e vem trabalhando em conteúdos ligados a Resident Evil Requiem, que marca o início de uma celebração maior da franquia. Mesmo com o lançamento recente, a empresa já sinalizou que haverá novos conteúdos chegando, o que reforça a sensação de continuidade para quem acompanha a série.
O resultado é visível: os jogos mais novos e os remakes têm recebido avaliações positivas e alcançado bons desempenhos comerciais. Além disso, a RE Engine não ficou restrita a Resident Evil. Ela também aparece em outros projetos da Capcom, como Street Fighter 6 e Monster Hunter Wilds, o que ajuda a consolidar o ecossistema técnico do estúdio.
Em termos editoriais, a estratégia da Capcom cria um efeito que vai além do “saudade”: ela reapresenta clássicos para quem não jogou na época e, ao mesmo tempo, recompensa veteranos com versões mais acessíveis e refinadas. É exatamente esse tipo de lógica que poderia ser aplicada a Zelda — com as devidas adaptações.
Por que Zelda poderia se beneficiar de um plano de remakes mais consistente
A Nintendo já fez remakes de Zelda no passado, e isso é um ponto importante: Ocarina of Time, Majora’s Mask e Link’s Awakening receberam tratamento moderno e foram bem recebidos. O problema é que, depois desses movimentos, o ritmo não parece tão previsível para o público. Enquanto portas e remasters ajudam, muitos fãs sentem que a série poderia oferecer mais experiências “de volta ao presente” — especialmente em um momento em que o catálogo da franquia é enorme e parte dele ficou preso a plataformas antigas.
Há também uma questão de mercado: o público demonstrou, com frequência, que quer jogar versões atualizadas de clássicos. Remakes bem feitos não servem apenas para quem já conhece a história; eles funcionam como uma porta de entrada para novos jogadores. Em Resident Evil, isso ficou evidente ao longo dos anos: títulos que antes eram “lendas de nicho” passaram a ser acessíveis para muita gente que nunca teria oportunidade de experimentar as versões originais.
Se Zelda adotasse uma cadência parecida, a franquia poderia manter o nome de Link em circulação com mais regularidade, sem depender exclusivamente de lançamentos totalmente novos. E, ao mesmo tempo, daria ao público um motivo claro para acompanhar a série em ciclos — algo que, em jogos, costuma ser decisivo para sustentar interesse por longos períodos.

Remakes 2D e 3D: nem todo Zelda combina com a mesma “receita”
Um dos pontos mais interessantes do debate é que nem todo Zelda é igual. A série sempre foi experimental, alternando entre estilos de jogo e propostas visuais. Por isso, a comparação com Resident Evil precisa ser feita com cuidado: a Capcom conseguiu unificar a experiência com uma engine consistente, mas Zelda tem uma variedade maior de estruturas.
Mesmo assim, existem caminhos. No caso dos jogos 2D, Link’s Awakening mostrou como um remake pode preservar a identidade e, ao mesmo tempo, renovar a apresentação. O remake de 2019 trouxe um estilo visual mais cartunesco, com aparência de “brinquedo”, e isso surpreendeu parte da comunidade. Só que, com o tempo, ficou claro que a escolha funcionou: o design tem personalidade e, em muitos casos, tende a envelhecer melhor do que gráficos que dependem demais de realismo.
Além disso, esse tipo de estética pode ser uma base sólida para futuros remakes de Zelda 2D. A lógica seria manter o núcleo de exploração e resolução de puzzles, mas ajustar mecânicas e controles para padrões atuais. Há ainda um elemento que poderia ser reaproveitado: no remake de 2019, a presença de masmorras personalizadas ajudou a dar longevidade e criatividade ao produto. Em um cenário em que a Nintendo não lança algo no estilo “editor” com a mesma frequência que outros estúdios, recuperar esse tipo de ferramenta poderia ser uma alternativa interessante.
Já no caso dos jogos 3D, a conversa muda. Nem todo título clássico se encaixa perfeitamente na mesma abordagem, mas existe um caminho que parece particularmente promissor: usar como referência o estilo de Breath of the Wild. A proposta de mundo aberto e a forma como o jogo incentiva exploração e combate mais dinâmico criaram um padrão que, mais tarde, foi reforçado por Tears of the Kingdom. A recepção positiva ao sucessor sugere que esse “modelo” de design ainda tem fôlego.
Assim, se a Nintendo decidisse remasterizar ou refazer aventuras 3D mais antigas — especialmente aquelas com estruturas que poderiam ser reinterpretadas — a chance de sucesso seria maior ao adotar princípios que já provaram funcionar. Combates e batalhas contra chefes poderiam ganhar intensidade com sistemas modernos, enquanto a exploração se tornaria mais recompensadora. Em outras palavras: não seria apenas “melhorar gráficos”, mas recontextualizar a experiência para um público que cresceu com expectativas diferentes.

Acessibilidade e plataformas: o ganho que vai além do saudosismo
Um argumento que costuma ser subestimado em discussões sobre remakes é a acessibilidade. Remakes não são só sobre nostalgia; eles também resolvem um problema prático: a dificuldade de encontrar e jogar certos títulos em plataformas atuais.
Em Zelda, muitos jogos foram desenhados para hardware específico. Isso significa que, quando chegam a outras plataformas, nem sempre recebem mudanças significativas. Os jogos de Nintendo DS e 3DS, por exemplo, dependem fortemente de recursos como tela dupla e controles por toque. Títulos como Phantom Hourglass e A Link Between Worlds seriam mais difíceis de modernizar sem perder parte do que torna a experiência única.

Por outro lado, remakes de jogos que se encaixam melhor em estruturas mais tradicionais — aquelas que fazem sentido no ecossistema do Switch e, futuramente, em seu sucessor — poderiam dar nova vida a aventuras que ficaram fora do alcance de muita gente. Isso inclui jogadores que não tiveram um portátil da Nintendo na época ou que simplesmente não acompanharam o catálogo completo.
Há ainda um efeito colateral positivo: quando uma franquia passa a disponibilizar mais títulos em plataformas atuais, ela fortalece o ecossistema de comunidade, discussões e descoberta. Resident Evil, ao longo dos anos, fez isso de forma consistente ao colocar praticamente toda a linha — remakes e versões originais — em múltiplas plataformas. Zelda poderia seguir uma lógica semelhante, especialmente agora, quando a série celebra 40 anos e tem um catálogo amplo o suficiente para sustentar diferentes tipos de projetos.
No fim, a proposta não é copiar Resident Evil ao pé da letra, mas aprender com o que a Capcom demonstrou: um planejamento de lançamentos que alterna novidades e remakes pode manter uma franquia viva, atrair novos jogadores e oferecer aos veteranos versões mais acessíveis e refinadas. Para Zelda, que já provou ser atemporal, esse seria um passo natural — e, talvez, o mais importante — para continuar relevante nas próximas décadas.
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Fonte: CBR




