A Netflix prepara a continuação do reboot de Little House on the Prairie com a promessa de levar a família Ingalls a um novo cenário, mas a produção já enfrenta um debate público que vai além da ficção. Em entrevista ao TheWrap, a showrunner Rebecca Sonnenshine comentou as críticas de conservadores que acusaram a série de “wokeificar” a obra, e também detalhou como pretende recontar a história com mais contexto histórico, incluindo a presença de personagens negros e indígenas em Kansas e, na sequência, a mudança para Walnut Grove, Minnesota.
O assunto ganhou força depois que surgiram notícias sobre a adaptação para a plataforma de streaming. Entre as reações, a apresentadora Megyn Kelly afirmou que, caso a Netflix “wokeifique” a franquia, ela faria “uma missão” para “ruinar” o projeto. Para Sonnenshine, no entanto, o termo “woke” perdeu precisão e passou a ser usado como rótulo genérico para qualquer conteúdo que desagrade parte do público.
“A definição padrão de ‘woke’, como era por muitos anos, era estar atento à justiça social e à desigualdade. Eu acho que isso é uma coisa boa”, disse a showrunner. Ela acrescentou que qualquer série que ela venha a produzir teria esse tipo de preocupação, porque, em sua visão, são qualidades humanas importantes que todos deveriam buscar. A resposta, portanto, não foi uma negação do tema, mas uma tentativa de recolocar a discussão no campo do significado original.
O que a showrunner diz sobre “woke” e sobre o Kansas retratado na série
Para Sonnenshine, a palavra virou um “caso de deriva semântica”, transformando-se em um “termo guarda-chuva” para coisas que as pessoas não gostam. A showrunner sustenta que a série não está tentando “inventar” uma realidade, e sim apoiar-se em registros históricos para construir personagens e relações sociais mais complexas do que a versão tradicional da narrativa costuma mostrar.
Um dos pontos centrais da 1ª temporada foi o Dr. George Tan, interpretado por Jocko Sims. Na trama, ele é um médico negro e o vizinho mais próximo dos Ingalls em Independence, Kansas. Sonnenshine argumenta que a presença do personagem não seria tão improvável quanto os críticos sugerem. Segundo ela, há documentação de que Dr. Tan era respeitado e atendia tanto colonos brancos quanto negros, além de lidar com comunidades Osage e Cherokee.
“É interessante para mim que isso pareça tão distante para algumas pessoas”, afirmou. A showrunner também reconheceu que existe um componente de “tentativa e erro” ao reconstruir o clima social de Kansas no período, especialmente quando se trata do nível de preconceito em relação a diferentes grupos. Ainda assim, ela defende que a série não deveria reforçar uma visão distorcida.
Na entrevista, Sonnenshine contextualizou que Kansas foi um território disputado por um período e que os Ingalls se mudaram para lá pouco tempo após a Guerra Civil. Nesse cenário, ela diz que Dr. Tan se tornou um personagem adequado para explorar ideias sobre convivência e desigualdade sem transformar o oeste americano em um lugar idealizado.

Racismo existe, mas a série evita transformar o passado em utopia
Ao mesmo tempo em que defende a plausibilidade histórica de Dr. Tan, Sonnenshine não trata o Kansas dos anos 1870 como um paraíso. A 1ª temporada mostrou que tanto o médico quanto Emily (Barrett Doss) enfrentam episódios de racismo. Um exemplo citado na entrevista é Jemma James (Mary Holland), descrita como uma vizinha “mandona” e que funciona como fonte de conflito no bairro.
Esse equilíbrio, segundo a showrunner, é parte do objetivo de recontar a história com mais fidelidade ao que se sabe sobre o período. A série, portanto, não tenta apagar tensões sociais, mas procura evitar que a narrativa se limite a um único tipo de interpretação, como se o passado fosse sempre igual ao imaginário popular.
Osage ganham espaço e a Homestead Act entra na trama
Outro elemento que Sonnenshine diz ter ampliado é a presença dos Osage. Na série original e nos livros, os Osage aparecem com menos desenvolvimento, muitas vezes como figuras observadas de fora, com os Ingalls olhando para pessoas que eles não compreendiam e que temiam, sem contato próximo. No reboot, a proposta é construir uma família Osage vivendo ao lado dos Ingalls, dando voz a uma perspectiva que, historicamente, foi marginalizada.
Essa escolha se conecta ao contexto da Homestead Act de 1862. A lei, aprovada durante o governo dos Estados Unidos, tinha como objetivo incentivar a ocupação de terras por colonos, ao mesmo tempo em que pressionava comunidades indígenas a se deslocarem para reservas. Sonnenshine descreve seu plano como uma forma de mostrar como o avanço de colonos sobre territórios indígenas fazia parte de uma política estatal, e não apenas de uma “aventura” individual.
Em 2026, ela afirma, seria hora de encarar aspectos problemáticos presentes nos livros. Ainda assim, a showrunner diz não querer que o público “jogue fora” a obra de Laura Ingalls Wilder. Para ela, os livros são “maravilhosos”, e o caminho seria reconhecer problemas, ao mesmo tempo em que se conta uma boa história sobre mudança. A ideia de transformação aparece na própria dinâmica dos personagens: Caroline Ingalls (Crosby Fitzgerald) chega a Independence com mais desconfiança em relação aos Osage, enquanto Charles é mais aberto e otimista.
Sonnenshine afirma que essas características estão alinhadas com o livro, mas que a adaptação permite que os personagens mudem ao longo do tempo, em vez de permanecerem presos a uma visão inicial.

O mito do individualismo e a “verdade no meio do caminho”
A entrevista também aborda um tema recorrente na cultura americana do século XIX e início do XX: o mito do individualismo. A showrunner diz que a Homestead Act tinha limitações e contradições que ajudam a desmontar a ideia de que o oeste era apenas um espaço de oportunidades construídas “com as próprias mãos”. Nos livros, a sobrevivência e a autossuficiência aparecem como temas centrais, e a expressão “puxe-se pelas próprias botas” costuma ser associada a esse imaginário.
Para Sonnenshine, porém, a realidade da vida pioneira não se resolve com esse tipo de narrativa. Ela também argumenta que Wilder não ignorava os perigos, mas que, ao escrever durante a Grande Depressão, a autora queria oferecer esperança. Nesse sentido, a série tenta ficar entre dois extremos: nem romantizar o passado, nem transformá-lo em uma caricatura.
“Ela estava escrevendo durante a Grande Depressão, e queria dar às pessoas esperança de que poderiam sair disso. Então havia um pouco de agenda na forma como ela apresentava a vida, uma versão ficcionalizada”, disse a showrunner. “A verdade está em algum lugar entre os dois.”

Por que a série muda a geografia e o elenco de apoio
Uma das decisões de adaptação destacadas por Sonnenshine foi a forma como a série organiza o mundo ao redor dos Ingalls. Nos livros, a família aparece com mais isolamento, mas a produção do reboot optou por colocá-los mais próximos de Independence. Essa proximidade, segundo ela, permitiu ampliar o papel de personagens que nos livros seriam “secundários”, mas que, com pesquisa, mostraram ter importância maior na vida dos Ingalls.
Ao mesmo tempo, a mudança de cenário terá impacto direto no elenco. Sonnenshine explicou que a 2ª temporada seguirá a família para Walnut Grove, Minnesota, local que foi o centro da série original. Com isso, alguns personagens de apoio que apareceram na 1ª temporada não devem continuar na mesma configuração.
Ela descreveu que sua proposta era acompanhar os “altos e baixos” dos livros, que são relativamente nômades por um período. A showrunner disse que sente falta disso na série original, mas que a televisão nem sempre permitia explorar essa mobilidade. Agora, com o reboot, a produção teria a oportunidade de fazer isso.

Personagens podem voltar e a produção busca fidelidade histórica
Mesmo com a mudança para Minnesota, Sonnenshine afirmou que pretende encontrar maneiras de trazer personagens de volta. Ela citou dois exemplos para explicar os limites e as possibilidades: Dr. Tan está enterrado em Independence, Kansas, e os Osage não se mudaram para Minnesota. Ainda assim, a equipe tenta manter fidelidade à verdade histórica e, ao mesmo tempo, preservar personagens que o público conheceu.
Na parte final da entrevista, a showrunner também falou sobre o trabalho de reavaliação de figuras icônicas do universo de Little House on the Prairie. Nellie Oleson, a mãe de Nellie e a personagem Mrs. Beadle serão revisitadas com “o mesmo espírito” e com “complexidades mais profundas”. Sonnenshine disse que os atores são “incríveis” e que o ambiente de produção está harmonioso.
Quanto ao calendário, ela afirmou que a equipe está “tentando muito” para manter o retorno da série anualmente, com a produção já em andamento. A 1ª temporada, por sua vez, está disponível no Netflix.
Por trás do debate sobre “woke” e das críticas conservadoras, a entrevista de Sonnenshine revela uma estratégia clara: usar o material de Laura Ingalls Wilder como ponto de partida, mas ampliar o olhar histórico, dar mais espaço a perspectivas que ficaram fora do foco tradicional e, principalmente, construir personagens que mudam. A 2ª temporada, ao levar os Ingalls para Walnut Grove, deve testar como esse equilíbrio se sustenta em um novo ambiente, com novos conflitos e novas relações.
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Fonte: thewrap Little House on the Prairie (temporada 1) está disponível no Netflix.



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