O episódio 6 de House of the Dragon, na terceira temporada, coloca Daeron Targaryen em uma situação que vai além da disputa política. Benjamin Evan Ainsworth, intérprete do personagem, afirma que a sequência violenta do capítulo abre os olhos do jovem, especialmente sobre o papel de Ormund Hightower, seu tio e figura paterna. Depois de um atentado, Daeron passa a enxergar com mais clareza o quanto a relação construída ao longo da temporada pode estar baseada em controle, manipulação e conveniência, e não apenas em afeto.
Ao longo da maior parte da temporada 3, Daeron tem sido mantido em um tipo de armadilha emocional e estratégica. Ele é o filho mais novo de Alicent, enviado para viver com os Hightower em Old Town, e acaba preso às motivações políticas de Ormund, que atua como mentor e, ao mesmo tempo, como alguém que molda o destino do sobrinho. A ideia de erguer Daeron como rei surge como uma resposta direta ao avanço da reivindicação de Rhaenyra (Emma D’Arcy), o que transforma o nome do jovem em um alvo. A consequência é imediata: quem tenta proteger Daeron precisa lidar com a violência que acompanha a guerra pelo Trono de Ferro.
Ainsworth descreve que, apesar de reconhecer o peso dessa dinâmica, ele enxerga a relação entre Daeron e Ormund com nuances. Para o ator, existe uma camada de afeto que, mesmo distorcida, sustenta a ligação entre os dois. Ele admite que, nos bastidores do texto, a relação parece “torcida”, carregada de manipulação e controle, mas ainda assim marcada por um subtexto emocional que não desaparece.
“Eu acho que ficou claro nos roteiros que parecia algo distorcido e manipulativo, controlador, mas havia um tipo de correnteza de amor entre os dois, por mais distorcido que fosse”, disse Ainsworth em entrevista ao TheWrap. “Eu vejo Ormund como uma figura paterna para Daeron.”
Essa leitura do ator ajuda a entender por que Daeron, mesmo cercado por ameaças, não reage apenas com desconfiança. Há um componente psicológico, segundo Ainsworth, que explica como alguém pode minimizar falhas e ignorar sinais quando acredita que a relação, no fundo, oferece algo valioso. Em outras palavras, o vínculo emocional pode funcionar como uma espécie de filtro, fazendo com que o personagem coloque de lado o que incomoda para preservar a sensação de pertencimento.
“Você sabe que, em certos estados psicológicos em que você quer que essa pessoa seja a melhor versão de si, você imagina que as falhas dela não estão lá e meio que coloca isso fora da sua mente, finge que não existe”, continuou o ator. “Existe um elemento nessa relação, especialmente quando ele sente orgulho de Ormund ou sente afeto vindo dele, e isso é algo inestimável. É mais valioso do que qualquer tipo de dor ou controle que ele tenha sentido. E, obviamente, é um lugar muito perigoso para se estar dentro de uma relação.”
O atentado do episódio 6 e a virada na dinâmica
Se a temporada vinha construindo essa tensão silenciosa, o episódio 6 acelera o processo. Ainsworth aponta que o capítulo traz um momento decisivo, em que a realidade invade a fantasia emocional. Perto do fim do episódio, um grupo de homens associados aos Baratheon chega a Tumbleton com uma proposta aparentemente conveniente: eles afirmam que a casa quer se aliar ao lado dos Hightower. A entrada desses visitantes muda o clima do ambiente e cria uma oportunidade para o atentado.
O ponto crítico, segundo a descrição do ator, é que Ormund reage de forma inesperada. Ele tem o olfato aguçado, e isso o faz cambalear, como se os sentidos estivessem dominando sua percepção. Ainsworth sugere que, nesse momento, Ormund pode perder o controle do próprio julgamento, o que abre espaço para o ataque. Em vez de manter a postura firme que costuma caracterizá-lo, Ormund se vê vulnerável, fisicamente afetado, enquanto a ameaça se aproxima.
É nesse contexto que entra Gwayne, outro tio de Daeron. Recém-chegado após atravessar os Riverlands junto de Criston Cole, Gwayne identifica o golpe. Ele e seus homens agem rapidamente, eliminando os assassinos antes que o plano se concretize. Enquanto isso, Ormund, que normalmente é retratado como alguém calmo e com domínio, acaba passando mal durante o jantar, vomitando, em uma cena que contrasta diretamente com a imagem de controle que ele projeta.
Para Ainsworth, a cena tem um efeito duplo sobre Daeron. Primeiro, ela revela quem realmente está preparado para lutar e quem, naquele instante, está debilitado. Segundo, ela coloca em xeque a autoridade emocional que Ormund exercia sobre o sobrinho. Ver Ormund incapaz de se manter sob controle diante de algo tão concreto quanto o “cheiro” e a presença de lama, por exemplo, faz Daeron perceber que a relação pode não ser tão estável quanto parecia.
Daeron entre a proteção e a dúvida: “como eu me defendo?”
O episódio 6, portanto, não é apenas um capítulo de ação. Ele funciona como um teste de confiança. Ainsworth afirma que, ao observar qual tio consegue agir com clareza e qual está praticamente paralisado pelas próprias sensibilidades, Daeron começa a formular perguntas difíceis sobre o futuro imediato.
“Ver qual dos meus tios está disposto a lutar e está com a cabeça no lugar, e qual ficou debilitado ao ver lama, faz Daeron pensar sobre o melhor passo adiante, enquanto HOTD corre para o final da temporada”, disse o ator.
O contraste entre Ormund e Gwayne, na leitura do intérprete, também cria um sentimento de frustração e choque. A cena evidencia que o homem que tem controle sobre Daeron não consegue controlar a própria reação diante de um gatilho sensorial. Para Ainsworth, isso gera uma espécie de quebra na percepção do personagem sobre a segurança que Ormund representava.
“Existe uma escalada acontecendo, e se isso continuar, os próximos dias e semanas parecem quase impossíveis de atravessar”, afirmou. “É interessante que Gwayne seja quem entra e salva a situação, e Ormund seja o que fica quase debilitado por causa das sensibilidades aos sentidos, vomitando ao meu lado. Eu acho que há quase uma frustração, mas também um choque em toda aquela cena, porque partes da relação com Ormund estão sendo questionadas. Como, esse homem que tem tanto controle sobre mim não consegue nem controlar a si mesmo ao ver lama?”
Com Ormund enfraquecido e Gwayne prestes a voltar para Old Town, o dilema de Daeron se torna mais urgente. Ainsworth descreve que o personagem passa a encarar a própria sobrevivência como um problema prático, não apenas emocional. Se Ormund não é confiável ou previsível, como agir? Quem protege? Que estratégia adotar quando a figura que deveria orientar falha?
“Se ele é imprevisível e não confiável, e Gwayne está voltando para Old Town, então o que eu vou fazer? Como eu me defendo? O que eu faço?”, completou Ainsworth. “Todas essas perguntas estão fervendo nas dinâmicas de poder entre Ormund e Daeron. E eu acho que, neste episódio, elas estão à beira de mudar, enquanto ele está sendo coroado como rei. É como, como ele dá um passo adiante e ainda mantém uma boa relação com Ormund?”
Essa tensão, segundo o ator, é o coração do capítulo. Daeron está prestes a ser “estilizado” como rei, ou seja, a assumir um papel que exige postura, decisões e alianças. Mas a coroação, em vez de resolver o conflito, pode intensificá-lo. O jovem precisa equilibrar a necessidade de afirmar sua autoridade com o risco de depender de alguém que, naquele momento, demonstra fragilidade.
O que esperar do restante da temporada
Com House of the Dragon se aproximando do fim da terceira temporada, o episódio 6 funciona como um divisor de águas. A ação do atentado, a identificação do golpe por Gwayne e a reação física de Ormund criam uma nova camada de incerteza para Daeron. A partir daí, a pergunta deixa de ser apenas “quem está certo na disputa pelo trono” e passa a ser “quem realmente consegue sustentar o poder quando a violência chega”.
Ao mesmo tempo, a cena reforça uma característica recorrente da série, que é mostrar como as relações pessoais, especialmente as que parecem familiares, podem ser atravessadas por interesses políticos. O que antes podia parecer uma proteção com afeto se revela, na prática, como um vínculo que pode ser quebrado no primeiro sinal de instabilidade.
Benjamin Evan Ainsworth, ao destacar o choque e a frustração presentes na sequência, sugere que Daeron entra em uma fase de decisões mais difíceis, em que o personagem precisa aprender a agir com autonomia. E, nesse processo, Ormund deixa de ser apenas um guia emocional, passando a ser também uma fonte de risco.
House of the Dragon é exibida aos domingos no HBO e no HBO Max.
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Fonte: thewrap



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