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A pergunta que vem rondando Euphoria nesta terceira temporada é direta: a série ainda é Euphoria sem Labrinth? Desde a estreia do novo ciclo, espectadores têm comparado a experiência de assistir ao drama de Sam Levinson com o que ficou marcado nas temporadas anteriores — especialmente pela música e pelo desenho sonoro assinados pelo cantor e compositor. E, a cada episódio, cresce o volume de críticas nas redes sociais sobre uma possível “virada” no clima musical do programa.
Um comentário resumiu bem o sentimento de parte do público após o terceiro episódio ir ao ar em 26 de abril: “É literalmente um programa totalmente diferente agora”. Outro espectador foi além ao dizer que, pela primeira vez, percebeu que não estava prestando atenção na trilha como antes. Para essa parcela dos fãs, a música sempre foi parte essencial da identidade da série — e, sem a assinatura de Labrinth, o impacto emocional de algumas cenas parece ter diminuído.
O que Labrinth construiu em duas temporadas
Não é comum que o compositor de uma série se torne tão reconhecível quanto o próprio projeto. No caso de Euphoria, isso aconteceu. Depois de estrear em 2019, a produção virou fenômeno cultural não apenas por lançar performances que colocaram seus atores em evidência, mas também por causa das escolhas musicais e do trabalho de Labrinth, que ajudou a definir o tom dramático e os contrastes intensos que marcaram a série.
Em especial na primeira temporada, o impacto do músico foi reconhecido com prêmios. Labrinth ganhou um Emmy de melhor música e letras originais por “All For Us”, além de outras indicações. Em entrevista ao The Hollywood Reporter, ele também comentou o legado do trabalho: para o artista, é gratificante ver que as pessoas se conectam com a obra e valorizam o que foi criado.
Mas, no começo de abril, Labrinth surpreendeu ao anunciar que não participaria da nova temporada. Em um texto publicado em seu Instagram Story, ele explicou que decidiu “remover” qualquer música que tivesse na série. Segundo a mensagem, ele teria conversado com a HBO e afirmou que a saída teria relação com a forma como seu trabalho seria tratado, destacando que, quando trabalha para alguém, a visão do projeto é prioridade — mas ele não aceitaria ser tratado de maneira inadequada.
Mais tarde, em entrevista ao GQ, o cantor disse que sentiu que “a família e a fluidez começaram a se deteriorar” e que a “camaradagem criativa” foi se dissipando. A partir disso, ele concluiu: “eu sei que isso acabou, para mim”.

Hans Zimmer assume, mas a “assinatura” sonora muda
Com a saída de Labrinth pouco antes da estreia da terceira temporada, a série não foi substituída por “qualquer um”. O compositor Hans Zimmer, um dos mais celebrados do cinema, chegou inicialmente para colaborar com Labrinth. Porém, com a saída do músico, Zimmer passou a ser o compositor principal da nova temporada.
Zimmer é um nome de peso e sua capacidade não está em questão. Ainda assim, especialistas lembram que música não é apenas técnica: ela também funciona como linguagem narrativa. Quando uma série já estabeleceu um universo sonoro próprio — como Euphoria fez nas temporadas anteriores — uma mudança brusca pode causar estranhamento no público. E isso aparece, inclusive, nos primeiros episódios do novo ciclo.
Para entender por que a trilha pode “desalinhar” a experiência, o The Hollywood Reporter ouviu Kier Lehman, supervisor musical indicado ao Emmy, com vasta experiência em cinema e TV, incluindo trabalhos como Project Hail Mary, Abbott Elementary, Insecure e Spider-Man: Into the Spider-Verse. Lehman não acompanhou a temporada atual nem seguiu o debate em torno da trilha, mas reforçou um ponto geral: manter uma identidade sonora consistente é importante, sobretudo em séries longas.
Segundo ele, estabelecer sons e temas para personagens e situações ajuda a orientar o espectador e a “ancorar” a audiência na história. A identidade pode evoluir ao longo do tempo, mas, se o público não recebe o que espera, o efeito pode ser “bem estranho” — especialmente em uma terceira temporada, quando a expectativa costuma ser de continuidade.
Críticas nas redes: de marimbas a comparações com “Under the Sea”
Após cada episódio, fãs costumam comentar rapidamente nas redes sociais as escolhas musicais. Depois do terceiro episódio, a discussão ganhou força com uma cena específica: quando Maddy (Alexa Demie) entra na festa de casamento de Nate (Jacob Elordi) e Cassie (Sydney Sweeney), a trilha acompanha o momento com um beat leve, baseado em marimba. Para parte do público, a escolha não combinou com a presença da personagem, que geralmente chega às cenas com intensidade e afiado senso de controle.
Em meio às críticas, alguns espectadores chegaram a comparar o trecho com “Under the Sea”, da A Pequena Sereia. Mesmo sem ser uma acusação formal, a comparação ilustra o tipo de reação: a música, em vez de reforçar o peso emocional e a tensão do momento, teria soado deslocada para quem já estava habituado ao estilo anterior da série.
Antes mesmo do episódio três, já havia sinais do incômodo. Em posts no X, usuários apontaram que, a cada capítulo, ficava mais claro que o trabalho de Labrinth “fazia o trabalho pesado” na série — assim como a cinematografia contribui, mas seria a música dele que dava “peso emocional” às cenas — algo que, na visão desses fãs, estaria faltando nesta temporada.
Outros comentários reforçaram a ideia de que a ausência do compositor reduz o “puxão” das cenas, como se faltasse uma peça que conectava emoção, ritmo e narrativa.
O lançamento de Labrinth e a resposta do público
Enquanto a série seguia no ar, Labrinth também movimentou o próprio calendário musical. No mesmo dia em que a terceira temporada estreou, ele lançou o single “Shut Your Damn 95.7892”. A coincidência alimentou ainda mais a percepção de que a trilha de Euphoria estava em outra fase. Como ele se apresentou no Coachella naquele fim de semana, é possível que o lançamento tenha sido planejado para aproveitar o momento — embora a relação direta com a série não tenha sido confirmada.
Depois disso, fãs recorreram ao TikTok para “dublar” o single de Labrinth em cenas da temporada, tentando recriar o clima que associam ao trabalho do artista. É um tipo de edição feita por espectadores, mas que revela algo importante: quando a música vira parte da memória afetiva do público, a ausência se torna perceptível até para quem não estava procurando.
Ao ser procurado pelo THR para comentar o debate que circulava online, a HBO informou que não iria se manifestar.
Por que a trilha vira parte da identidade da série
No fim, o que a repercussão mostra é que o que o público vê na tela não existe separado do que ele ouve. Em Euphoria, a música sempre funcionou como um elemento de construção de atmosfera, ritmo e significado. Quando uma série cria uma identidade sonora ao longo de duas temporadas, trocar essa base pode gerar um efeito de “choque” — mesmo quando o novo responsável é um compositor de altíssimo nível.
Lehman resumiu a lógica ao explicar que uma das características que tornam uma série especial é justamente ter um som único, associado diretamente ao programa. Para ele, quando o espectador ouve a música em outro lugar, ainda assim consegue identificar a série. Isso acontece, em parte, porque um artista com voz própria ajuda a formar um “paleta” sonora que passa a ser reconhecida como parte do universo.
Assim, a discussão em torno da trilha de Euphoria não é apenas sobre gosto musical. É sobre continuidade, identidade e sobre como a narrativa emocional depende de escolhas que, para muitos fãs, sempre estiveram no centro da experiência.
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Fonte: yahoo




