Após o impacto de Unicorn Wars, o diretor e roteirista Alberto Vázquez está de volta com Decorado (2025), uma animação que troca o horror explícito da guerra entre unicórnios e ursos de pelúcia por uma reflexão existencial e paranoica sobre realidade, alienação e poder corporativo. Produzido pelo estúdio espanhol Uniko Estudio Creativo, o filme amplia o curta homônimo de 2016 e consolida Vázquez como um dos nomes mais provocadores da animação contemporânea.
Um mundo de mentiras e fantasmas
A trama acompanha Arnold, um rato de meia-idade em crise, convencido de que sua cidade, chamada Anywhere, é na verdade um cenário artificial, como se tudo ao seu redor fosse parte de um filme. Desempregado há anos e lutando contra a depressão, ele depende de remédios para suportar o cotidiano, enquanto sua esposa — uma cartunista sobrecarregada — tenta sustentar a casa e é cortejada pelo CEO da megacorporação ALMA (Almighty Limitless Megacorporative Agency), que domina a cidade de forma silenciosa.
Ao lado de seu melhor amigo Ramiro, um fantasma que morreu devorado por uma coruja gigante, Arnold tenta provar que a realidade é uma farsa, enquanto o mundo à sua volta começa a ruir.
De Unicorn Wars a Decorado: a maturidade do absurdo
Vázquez abandona o sangue e o choque gráfico de Unicorn Wars e adota uma atmosfera mais psicológica e paranoica, onde o terror vem da dúvida constante: o que é real? A direção de arte mantém o contraste entre o traço infantil e cores suaves e os temas adultos e perturbadores, uma marca registrada do cineasta.
Se em Unicorn Wars o horror nascia da brutalidade explícita, em Decorado o medo é interno — alimentado pela sensação de estar preso em um mundo falso, manipulado por forças invisíveis. A gigantesca coruja devoradora de pessoas simboliza esse controle total e impiedoso, tornando-se uma presença ameaçadora em cada esquina da narrativa.
Influências e estilo visual
A estética de Vázquez remete a uma fusão entre o surrealismo europeu e a crítica social moderna, com paralelos a obras de Ralph Bakshi (Fritz the Cat) e Genndy Tartakovsky (Primal, Samurai Jack). No entanto, Decorado é inconfundivelmente autoral: um universo colorido e cômico que esconde um abismo de melancolia e desespero.
O humor negro também está presente — piadas como o alarme de celular disfarçado de canto de pássaro e o gag da sereia quebram a tensão em momentos estratégicos, mas sem suavizar o desconforto que permeia o filme.
Temas: o controle invisível da ALMA
Por trás da jornada pessoal de Arnold, Decorado é uma crítica feroz à alienação contemporânea. A corporação ALMA funciona como metáfora para o domínio das grandes empresas sobre o indivíduo, lembrando que, mesmo quando alguém desperta para o absurdo do sistema, a máquina continua girando.
Arnold perde tudo, recupera, e perde novamente — um ciclo sem saída que reflete o colapso emocional e econômico do cidadão comum. A conclusão é amarga: mesmo quando todos percebem que a cidade é falsa, ninguém consegue escapar do controle.
Um pesadelo belo e necessário
Decorado é uma obra que encanta e perturba em igual medida. A combinação entre humor ácido, crítica social e visual encantador cria uma experiência única — um pesadelo ilustrado sobre conformismo e desumanização.
Mesmo previsível em alguns pontos, o filme conquista pela força simbólica e pelo olhar pessimista, porém lúcido, sobre o mundo moderno.
Vázquez prova mais uma vez que a animação pode ser muito mais do que entretenimento infantil: pode ser um espelho cruel e poético da nossa própria realidade.
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Fonte: boundingintocomics



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